domingo, 15 de abril de 2012

Como dar um Golpe de Estado em cinco passos


Continuando o momento de descontração dessa semana, postamos aqui algumas dicas imprescindíveis àqueles que querem chegar ao poder- na marra! Quem nos elucidará o caminho será o mestre da política moderna, Nicolau Maquiavel...


Passo um: crie instabilidade. Ou espere alguma... e tenha muito, muito dinheiro em caixa.

Antes de tudo, é preciso que as instituições estejam em crise. A sociedade tem de estar em crise, vale dizer: períodos de crise econômica são os melhores, as pessoas acreditam em qualquer um que diga que vai resolver as coisas. Não esqueça: você deve ter dinheiro, e muito, para começar a distribuir propaganda e começar a se aproximar dos poderosos insatisfeitos. Afinal, as pessoas precisam comer, e não vai ser sem emprego que vão conseguir... o governo que se pretende derrubar deve, então, dar sinais de fraqueza e incompetência. Se você puder, jogue as bases de apoio do governo umas contra as outras: minta, suborne, não deixe que se chegue a um acordo que possa resolver os problemas do país. Impossibilite que o governo possa agir.

É interessante que, com o dinheiro, você especule na Bolsa e planeje, como mercado, derrubar as ações do país e exigir juros mais altos para a dívida; os banqueiros da Europa assim o fizeram, e deu certo: o governo pelo abrandamento da dívida (sem o qual os países europeus quebrariam), ou seja, nos deixem governar, se não quebramos vocês... faça, assim, com que o caos impere. Lembre-se de Lúcio Sérgio Catilina: este homem tentou, na Roma antiga, incendiar a cidade e, durante o caos, tomar o poder. Bem, não precisa por fogo na cidade... mas o efeito, o contexto, deve ser o mesmo. Não é qualquer instabilidade... precisa ser algo que golpei de morte o Estado e suas forças. Deve-se esperar o momento oportuno, ou seja, a Virtú: construa diques, meios de dar o golpe, antes da instabilidade operar... as crises vão ser apenas o sinal verde para que você aja. Quebre a pernas do velho poder, e esvazie o copo antes de enchê-lo de novo. Anote as lições de Nicolau.

Passo dois: faça aliados. Prometa, prometa...

Criada ou instalada alguma adversidade, preocupe-se em concentrar ao seu redor os descontentes. Empresários, militares e latifundiários estão sempre descontentes, vale dizer... por isso, são mais fáceis de seduzir. Prometa mundos e fundos. Diga que vai resolver as coisas, prometa benefícios generosos e, acima de tudo, saiba jogar com as massas. Prometa pão ao operário, moeda estável e subsídio aos patrões e ordem aos militares... articule alianças a nível nacional e "distribua'' o poder, prometendo que esses grupos sociais participem do governo. Prometa mesmo aos integrantes do governo lugar no seu próprio governo... não se meta com mercenários, ou seja, não resuma tudo ao dinheiro: distribua promessas de poder, porque esse pode fazer enriquecer perpetuamente... esse foi um dos principais conselhos de Maquiavel. E, claro, sempre se apresente como aquele que vai acabar com os conflitos sociais. Você é sempre o mocinho, não esqueça.

Passo três: tenha um braço armado. E outro, na mídia.

Esse passo decorre do segundo, naturalmente. Não se dá um Golpe sem o apoio de pessoal armado. Os bancos, que deram golpes recentes na Europa, não conseguem consolidar seu domínio sobre os países por lhes faltar força militar. Mesmo que seu golpe seja a partir da economia e "dentro das instituições'' (ou seja, você lançou um partido radical que afirmou resolver tudo, como Hitler, e disputa as eleições para que obter o apoio do próprio povo). Ou seja, tenha apoio de um grupo militar de forma estável e contínua; ou melhor, dê um inimigo para os militares e para a nação, mesmo que não exista... eles adoram cumprir ordens e destruir o adversário. Faça esse favor a eles.

 Por outro lado, os meios de comunicação devem estar ao seu lado. Eles farão sua imagem, criarão a mentira de que você vai resolver as coisas, te transformarão em um super-herói. Para isso, é preciso mais dinheiro ainda: o ideal é ter uma emissora de televisão sua, ou em nome de laranjas, e pelo menos uns dois jornais ao seu lado. Compre algumas concessões de telecomunicação e, ao resto da mídia, diga que vai renovar as licenças e monopolizar o mercado de comunicação para elas. É tiro certo, vide o regime militar! Ou seja, detenha o poder sobre a informação e, por sua, vez, sobre a verdade: ela tem de ser a sua verdade. Mais um conselho de Maquiavel.

Passo quatro: esteja pronto para tudo.

Esse é bem difícil. Sabe quando tudo dá certo, mas... as coisas se resolvem? A crise termina, o governo sobrevive... saiba se retirar do jogo e esperar ou criar outra chance. Lembre-se: a crise é o sinal verde. Em outros casos, você pode ser traído ou assassinado, ou mesmo algum país pode ameaçar proteger o governo. Saiba esperar na moita e, melhor, usar esses incidentes sempre ao seu favor. Saiba aproveitar mesmo as desventuras: a sua virtú é sempre tirar vantagem de tudo. Evite os bajuladores, claro, e cuidado com os fofoqueiros e informantes do governo; lição de Maquiavel. Faça tudo, repito, na moita...

Passo cinco: Seja muito, muito discreto.

Por fim, não bombardei o palácio presidencial ou feche o Congresso, com aqueles ataques malucos; pega muito mal. Feitos os acordos políticos, loteados os cargos no governo, destinadas as verbas públicas aos grandes empresários e banqueiros, distribuídos os favores, no auge da campanha da mídia aliada contra o governo, seja muito, muito discreto. Você vai assumir o poder "para o bem da nação'', dentro das formalidades da democracia: você apenas está derrubando um governo e o Estado que ele representa. O Golpe mesmo começa com as Emendas à Constituição, revogação de leis inconvenientes e repressão social: refundar uma nova ordem estável. É o que ocorre na Europa: Emendas constitucionais garantem subsídio ao agronegócio e o pagamento das dívidas públicas antes de qualquer investimento, retirando recursos da educação e da saúde. Crie um novo Estado com os instrumentos do velho, de forma a aniquilar o pretérito regime. Por fim, distribua mimos ao povo (é o erro dos bancos, no golpe que deram), patrocine festas (dinheiro, sempre dinheiro...) e comemorações nacionais, para distrair o povo das "reformas'' que você está fazendo.

 Crie uma ilusão onde a realidade é o que mostra a TV, faça com que as prioridades do povo resumam-se a futebol, bebida, festanças e moda. E, acima de tudo, mantenha a ordem. Faça com que pareça que o velho Estado permaneça intacto. Retire direitos na calada da noite e, agora sim, quando o ocasionalmente o povo acordar, desça sobre eles seu braço armado. Saiba mentir, manipular, professe os valores sociais mais aceitos, de forma normal, nunca de maneira extrema. Use os políticos, a religião, o que for. Mas mantenha o poder nas mãos. Todos os meios podem ser usados, diante dos seus fins, que tem de parecer nobres. Outra lição digna de nota do velho Maquiavel: nada de grandes eventos no dia do golpe (seja uma eleição, seja o que for, sendo o primeiro caso o mais indicado), e, sempre, desconsidere a ética. Mas finja-se de ético, é claro...


É isso... o objetivo aqui não foi, é claro, ensinar passos sobre como dar um golpe. Mas sim dar dicas sobre como reconhecer um: fiz referências à Europa de propósito. No velho continente, Grécia, Espanha e Portugal sofreram golpes por parte de grupos econômicos que seguiram as mesmas lições aqui apresentadas, excetuando-se a terceira, dos braços armados, embora a mídia estivesse apoiando-os. É o que farão no Brasil, caso as coisas se compliquem. Por enquanto, está tudo bem, mas e amanhã? Esteja pronto e, como cidadão, saiba barrar essa corja e salvar a democracia!

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