Aqueles versados em Administração ou Sociologia conhecem de antemão a ideia de "idealtypes'' que Max Weber utilizou como conceitos genéricos e estruturados de maneira sistêmica, como uma metodologia positivista eficiente. Aliás, desde Platão, o papel do pensamento humano - e da ciência, por extensão- é produzir conceitos e, com eles, classificar a realidade em uma estrutura lógica e racional inteligível (vai dizer isso para os fisicos quânticos...).
Aqui, vamos descontrair a modorra cinzenta da crítica anti-pós-moderna que recentemente maculou o Blog e, com algumas pontadas de acidez, pretendemos classificar, em "tipos ideais'' (risos), o posicionamento político dos estudantes universitários desta brava e culta nação.
1- Esquerdopatas: os paleomarxistas

Os esquerdopatas ainda são fortes, principalmente nos cursos da área de humanas, sempre organizando-se segundo as velhas lógicas burocráticas do antigo Partido Comunista, pixando paredes e viadutos com frases como "eleição não, revolução sim!'', ou "punição aos torturadores da ditadura!''- são, apesar de toda sua cegueria ideológica, alunos responsáveis e incansáveis (apesar de darem a tudo uma conotação política...). Seu apego às velhas concepções do marxismo os fazem também apelar para um total radicalismo de ideias, ausência e rejeição de crítica a seus dogmas comunistas e a um certo grau de violência e marginalismo social (afinal, entre eles, ainda circulam exemplares dos livros de guerra urbana, em moda durante os anos 70, mas hoje, totalmente despropositados...) assusta possíveis adeptos e isola os esqueropatas em pequenos e cada mais reduzidos grupos. Seus ídolos são os comandantes da guerrilha urbana e rural contra a ditadura - Lamarca e Marighela, por exemplo-, além de Stalin, Trotsky, Che Guevara (um verdadeiro Messias iluminado, santo, puro e romântico...) e demais revolucionários imolados, segundo eles, no altar do sacrifício da luta contra o satânico capitalismo.
2- Melancias naturebistas

Politicamente, criticam o consumismo exarcebado e a ganância do capitalismo, e defendem a legalização das drogas (nas quais são chegados, tá ligado?), mas não se importam com os fudamentos do sistema, sendo de centro-esquerda. Os melancias estão presentes nos cursos da área de ciências da natureza, e geralmente os melancias também são liberais morais- é raro que sejam conservadores-; são alunos relativamente irresponsáveis, um pouco desorganizados e não têm muito interesse no curso (existem numerosas exceções, pelo céu!). O principal problema dessa tendência é sua ingenuidade: acreditar que todos os males do mundo se resumem ao mau-trato da natureza e evitam realizar uma crítica mais profunda ao modelo de sociedade - e suas relações sociais-, apenas aderindo à uma vaga pauta de medidas políticas fatalmente secundárias e incidentes. No fim, a preservação pela preservação do meio ambiente não conduz a lugar algum... não são nada mais, nada menos, que ecocapitalistas.
3- Bom-mocismo: os conservadores a la TFP
Esse grupo é fatalmente minoritário, pertencente aos "altos'' quadros da sociedade brasileira. São, geralmente, rapazes de famílias tradicionais, educados na Igreja, e defensores da Tradição, Família e Propriedade como fundamentos da sociedade. Geralmente, costumam adotar uma pauta liberal na economia e conservadora na moral: o coquetel duplo de "privatizações'' e "repressão dos movimentos sociais, LGBT e abortistas'' os fazem ver estrelas em orgarmos ideológicos múltiplos. Se, por um lado, desprezam os movimentos sociais e acreditam que pagam impostos para sustentar 40 milhões de vagabundos - entre pais, filhos e famílias inteiras- que se beneficiam de programas como o Bolsa-Família, são os defensores vorazes e incansáveis das tradições morais que caracterizam um pensamento de cunho colonial, o que não é negativo de todo; individualistas na economia, mas fortemente comunizantes - ou mesmo "socialistas''- na esfera moral tradicional, tentando impor a todos como correta sua moral cristã conservadora. Estão mais presentes em cursos como Direito, Medicina e outros mais tradicionais, sendo espécie extinta nos cursos de ciências humanas em geral. São os herdeiros do pensamento da UDN - o que é bom para os EUA, é bom para o Brasil- e dos políticos que desfecharam o golpe de 1964, uma "absoluta necessidade'', segundo eles, ou, pior, "uma revolução democrática''. São relativamente arrogantes, alunos medianos e se proclamam como líderes dos grupos onde estão. Ah, acreditam nas reportagens da Veja como sse fossem dogmas proferidos ex cathedra pelo Papa, e pensam que a mídia brasileira é amplamente democrática; os bons-moços se tornam latifundiários, industriais e empresários do setor de comunicações, geralmente herdando fortunas pra isso...
4- Libertários: Robinson´s Crusoé tupiniquins
Esses são uma nova tendência. Importada diretamente dos EUA e das escolas tradicionais de economia de Chicago (os monetaristas, hehe...), esses rapazes e moças são quase pregadores do fundamentalismo de mercado e do super-individualismo. O Estado, para eles, resume-se à mera necessidade (um mal necessário, dizem, repetindo o que Thomas Paine disse há eras...) de proporcionar ao indivíduo segurança pública. No entando, apesar do radicalismo ("Ora! Todos tem capacidade pra trabalhar e ter um plano de saúde privado, pagar uma faculdade e montar na grana... o Estado não precisa usar esses assistencialismos ineficientes pra promover a preguiça do povo, às custas de quem paga impostos!''), eles são coerentes em seu liberalismo: para eles, todas as esferas individuais devem ser deixadas à alçada do próprio homem ("portanto, se ele se decide por fumar maconha, realizar um aborto ou curtir Restart, isso é um problema dele, oras... só está exercendo seus direitos!''), inclusive a promoção do próprio bem-estar social; ou seja, se são liberais em política e economia, também o são na esfera moral (e suas ideias lembram muito a lógica da Oikos grega, que era a propriedade do indivíduo ateniense, onde o cidadão exercia o despotés, o poder absoluto, em todas as esferas). Geralmente, os libertarianos são estudantes de Economia (e alguns poucos de Direito), que gostam, deveras, da cultura norte-americana, embora sejam alunos responsáveis, mas que detestam trabalhos em grupo e são muito orgulhosos. O libertarianismo pode ser entendido como o radicalismo de uma ideologia moribunda (que está na UTI da História), o neoliberalismo, e como uma tendência natural que certas pessoas tem de, quando algo dá errado (crises econômicas seguidas...), fazer tudo de novo de maneira ainda mais radical. É como dizer que as crises dos últimos anos ocorreram porque "faltou mais liberalismo''. A melhor imagem para descrevê-los é a de Robinson Crusoé: pensam que sua individualidade é uma ilha só deles, onde valem suas leis e só pensam depender dos seus recursos para sobreviver.
5- Revoltadinhos: franco-atiradores
Ah, esses são inteligentes, mas quase ninguém suporta (ainda bem que são umas das "menores minorias''). Criticam a tudo e a todos, ora partindo de uma base política de esquerda, ora de um princípio de direita (o liberalismo, por exemplo). Veem defeitos horrorosos nas principais teorias e autores adotados e gostam de "ser do contra'' pelo simples prazer - ou pela emoção- de ser diferentes dos demais. Gostam de "aparecer'' e desafiar os professores, além de criticar o governo, diariamente, toda hora, a cada minuto e em cada pensamento. O PT é uma quadrilha, o PSDB é privatista, Eduardo Campos é um coronel, blá-blá-blá. Geralmente, esse grupo tende a ser anarquista (ou, no máximo, do PSOL), literalmente, desejando destruir a ordem social e por no lugar... nada!. Simplesmente abriram mão de qualquer possibilidade de reforma e são radicais: é preciso destruir tudo e não construir nada no lugar... são alunos responsáveis, bebem quantidades absurdas de álcool e são chegados na "erva''.
6- Pseudo-esquerda: "liberatudo''

A maior crítica contra os liberatudo é sua ingenuidade e cegueira ideológicas. Ingênuos, porque não realizam uma crítica radical - no sentido de ir até a raiz- da sociedade, não propondo, no lugar do atual capitalismo financeiro consumista, nenhuma alternatica real, e ainda mais por acreditarem que a pauta política liberatudo confronta os interesses dos "poderosos''- quando é, justamente, o que mais eles desejam (como se vê na mídia, os grandes empresários desejam o soterramento da moralidade, vista como freio ao consumo, e preferem o fluído, o fugaz, a divinização do prazer e a destruição criativa das tradições - uma constatação brilhante do sociólogo Zigmunt Bauman). São cegos, ideologicamente, por não perceberem a inutilidade prática de seus axiomas: afinal, o problema da desigualdade social, da fome e da miséria vai ser resolvido, magicamente, com a liberação do casamento gay e do aborto (aliás, qual a relação dessas pautas com a "proteção aos grupos sociais em situaçao de miséria e exclusão''?), não? Por fim, não enxergam que suas doutrinas são inteiramente estranhas à nossa população, que rejeita suas propostas liberacionistas. Sendo minoria, os liberatudo gostam de impor suas ideias sob a forma de "realização e garantia dos direitos fundamentais'', repetindo um fenômeno diagnósticado por Bauman, onde não mais a sociedade e seu bom funcionamento estão - como deveriam estar- na pauta política, mas a realização dos "direitos fundamentais'', que consagram a proteção às "diferenças'' entre os indivíduos...
7- Petistas e pelegos

8- Tô-nem-aí: "eu sou mais eu!''

-Conclusões
Apesar de existirem outros grupos (pequenas "seitas'', como os neonazistas, ou religiões, como os budistas e os evangélicos militantes...) os grupos descritos são a "maioria'' dos universitários, ou, então, as correntes mais relevantes. Alguns estudantes, claro, estão em mais de uma tendência, formando grupos e indivíduos híbridos: libertários que podem ser bom-moços, liberatudos que se mostram pelegos, pelegos que são melancias, e por aí vai. Contudo, salvo raras exceções, a classe estudantil brasileira de hoje está muito abaixo, cultural e politicamente, das gerações anteriores. A grande importância dos universitários, em outros períodos, é apenas uma pálida lembrança do passado, diante da inércia política e até indiferença moral que a atual geração faz questão de eleger como valores absolutos. Aqueles que possuem algumas pautas políticas ainda, mesmo que decadentes, anacrônicas, totalmente desmioladas ou sumamente desagradáveis e ingênuas, não conseguem lograr nem um décimo da influência política anteriormente gozada pelos estudantes. Parece-me que os atuais universitários desejam apenas "garantir o seu'' emprego, família e dinheiro, mandando o resto para o raio que o parta. E viva os universitários do Brasil... e que o povo (n)os perdoe.
Como rotular os milhares de brasileiros que foram às ruas recentemente? Foi um somatório de minorias?
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