As vezes eu me pergunto qual o sentido desse caos sombrio chamado vida. As pessoas morrem, são assaltadas e estupradas, mas mesmo assim se embriagam em festins imorais, riem e fazem planos. Constroem mentiras para disfarçar o quanto o mundo é feio; quando o julgo da escravidão ou da miséria aperta, apelam para a imaginação. Nascem ideologias, Estados e religiões... mas as pessoas continuam a morrer, ou, pior, a viver no caos, desordem, insegurança.

Se antes erramos por tomar o Estado (e seus Fuhers, Duces, reis e ditadores) e a economia como absolutos, hoje erramos muito mais por tomarmos como soberanos autocratas nós mesmos. Por isso, nunca a humanidade viveu um momento de tamanha escuridão moral, espiritual e intelectual. Nunca fomos tão tolos, desumanos, crueis, hipócritas, egocentristas. Nunca vivemos em uma sociedade mais violenta, mesmo que tentemos disfarçar isso com mentiras e alienações em massa, truques forjados por técnicas de marketing e pelo excesso de informação. Criam-se modas, manias, cantores e jogadores de futebol são os estereótipos e ditadores da moda e da moral, junto com a mídia; o consumismo se torna uma regra e modelo a ser seguido; tudo o que é de medíocre, exótico, incidental e absolutamente irrelevante é valorizado ao máximo. Tenho nojo desse mundo. Onde crianças morrem de fome e abortadas, mulheres são espancadas e gostam, glorificados são aqueles que saqueiam o mundo no comando de bancos e transnacionais, homens e mulheres vivem na mais completa imoralidade e acham isso um direito, e tudo isso é bem-quisto ou visto como males- ou mesmo bens, valores, "bandeiras''...- necessários e até queridos. Tenho ódio desse mundo.
E não só eu. Qualquer pessoa com o mínimo de bom-senso deve ter percebido que há algo muito errado com nossa realidade. Que a vida perdeu o sentido, que o romantismo, os bons ideais, a moral, a luta por uma sociedade melhor, que tudo isso se perdeu, foi relativizado. Esse foi o maior mal que a pós-modernidade neoliberal nos legou: nossas verdades, pelas quais poderíamos mudar o mundo, são meros "pontos de vista'', tão válidos quanto as justificativas dos opressores. E, sem esse poder erga omnes que só as verdades universais (não absolutas, veja-se) possuem, somos esmagados porque, no mundo prático, o dinheiro e o poder colonizam o mundo da vida e impedem que, buscando o consenso sinceramente, mudemos a sociedade, reparando as injustiças, revolucionando o mundo; trocamos em miúdos, prevalece a força física e simbólica, e o dinheiro, claro, de quem é mais forte.
Fingem estes que todos são iguais e pequenos semideuses de si mesmos, mas somos apenas livres para viver como eles querem, trabalhado como eles querem e consumindo o que eles querem. Até pensando como eles, a poderosa elite pós-moderna, fluída, fúgida, irresponsável, querem que pensemos, relativizando tudo. Para eles, interessa não ter valores, moral, deveres de qualquer forma; seu objetivo é lucrar, oprimir e dominar, sem, contudo, ter o encargo de proteger e alimentar os dominados, como os senhores feudais, monarcas absolutos ou o em gradual desmantelamento Estado moderno. Enquanto as elites buscam a irreponsabilidade e não se prendem mais a territórios ou deveres, as classes baixas buscam desesperadamente fortes bases morais que possam ocupar o vácuo existencial que a pós-modernidade criou. Fundamentalismos religiossos e políticos, libertarianos, marxistas, evangélicos, membros da Opus Dei... uma parte de nós nunca foi tão extremista quanro é hoje. Tolos, seguindo cânones e receitas morais unilateralmente criadas. Acabamos dançando na beira dos dois abismos, oscilando entre o caos relativista e o totalitarismo axiológico.
E isso completa o círculo de dominação forjado pelos poderosos; como os extremistas afirmam verdades absolutas (e só eles poderiam fazer frente à elitepós-moderna), acabam se dividindo em facções que lutam entre si, e não enxergam quem são os verdadeiros inimigos; industrais, banqueiros, latifundiários, oligarquias políticas (no fundo, os adversários reais dos verdadeiros cristãos, socialistas, libertários e afins) acabam dominando, nessa luta entre extremos, com um poder colossal sobre a sociedade jamais exercido por nenhum ditador. Com o rebanho dividido, sem pastores ou cães pastores, fica fácil tosquiar as ovelhas ao matadouro, e fazê-las gostarem disso, ainda por cima. Esse poder colossal consiste simplesmente em liberar a fera que existe nos homens, dando-lhes a graça da liberdade ilimitada, desde que não afete os interesses monetários daqueles que, mesmo comandando o mundo, revogam todas as regras, quando deveriam forjá-las.


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