quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O sentido da vida: entre o caos e o totalitarismo

 

As vezes eu me pergunto qual o sentido desse caos sombrio chamado vida. As pessoas morrem, são assaltadas e estupradas, mas mesmo assim se embriagam em festins imorais, riem e fazem planos. Constroem mentiras para disfarçar o quanto o mundo é feio; quando o julgo da escravidão ou da miséria aperta, apelam para a imaginação. Nascem ideologias, Estados e religiões... mas as pessoas continuam a morrer, ou, pior, a viver no caos, desordem, insegurança. 

E onde está a Verdade? E qual é o sentido da vida e da História? Há um "certo'' ou "errado'' universais? Muitas vezes parece-me que só o "salve-se quem puder'' é a única verdade universal. Dizem que o mundo feudal, onde senhores de terras comandavam cavaleiros e camponeses com base em uma união pessoal que visava preservar ambos dos ataques inimigos, acabou. Agora vejo porque durou tanto e porque seus resquícios ainda sobrevivem como relíquias de um passado onde o coletivismo e a ajuda mútua predominavam: hoje, nos acostumamos a esmagar todos os que são próximos, nossos concorrentes. A família, a comunidade, a sociedade, tudo dissolveu-se e só restou o "mini-homem'', só, sem verdades a lhe guiar ou sem ter pelo que lutar se não ele mesmo. Agora, o homem é o lobo do homem, e isso é glorificado, almejado, estimulado... a "verdade'' do opressor é tão válida quanto a do oprimido. Mataram Deus e entronizaram o Diabo, pelo qual cometeram a essência do pecado original: a pretensão de tomar, os próprios homens, o lugar de Deus. 

Se antes erramos por tomar o Estado (e seus Fuhers, Duces, reis e ditadores) e a economia como absolutos, hoje erramos muito mais por tomarmos como soberanos autocratas nós mesmos. Por isso, nunca a humanidade viveu um momento de tamanha escuridão moral, espiritual e intelectual. Nunca fomos tão tolos, desumanos, crueis, hipócritas, egocentristas. Nunca vivemos em uma sociedade mais violenta, mesmo que tentemos disfarçar isso com mentiras e alienações em massa, truques forjados por técnicas de marketing e pelo excesso de informação. Criam-se modas, manias, cantores e jogadores de futebol são os estereótipos e ditadores da moda e da moral, junto com a mídia; o consumismo se torna uma regra e modelo a ser seguido; tudo o que é de medíocre, exótico, incidental e absolutamente irrelevante é valorizado ao máximo. Tenho nojo desse mundo. Onde crianças morrem de fome e abortadas, mulheres são espancadas e gostam, glorificados são aqueles que saqueiam o mundo no comando de bancos e transnacionais, homens e mulheres vivem na mais completa imoralidade e acham isso um direito, e tudo isso é bem-quisto ou visto como males- ou mesmo bens, valores, "bandeiras''...- necessários e até queridos. Tenho ódio desse mundo. 

E não só eu. Qualquer pessoa com o mínimo de bom-senso deve ter percebido que há algo muito errado com nossa realidade. Que a vida perdeu o sentido, que o romantismo, os bons ideais, a moral, a luta por uma sociedade melhor, que tudo isso se perdeu, foi relativizado. Esse foi o maior mal que a pós-modernidade neoliberal nos legou: nossas verdades, pelas quais poderíamos mudar o mundo, são meros "pontos de vista'', tão válidos quanto as justificativas dos opressores. E, sem esse poder erga omnes que só as verdades universais (não absolutas, veja-se) possuem, somos esmagados porque, no mundo prático, o dinheiro e o poder colonizam o mundo da vida e impedem que, buscando o consenso sinceramente, mudemos a sociedade, reparando as injustiças, revolucionando o mundo; trocamos em miúdos, prevalece a força física e simbólica, e o dinheiro, claro, de quem é mais forte. 

Fingem estes que todos são iguais e pequenos semideuses de si mesmos, mas somos apenas livres para viver como eles querem, trabalhado como eles querem e consumindo o que eles querem. Até pensando como eles, a poderosa elite pós-moderna, fluída, fúgida, irresponsável, querem que pensemos, relativizando tudo. Para eles, interessa não ter valores, moral, deveres de qualquer forma; seu objetivo é lucrar, oprimir e dominar, sem, contudo, ter o encargo de proteger e alimentar os dominados, como os senhores feudais, monarcas absolutos ou o em gradual desmantelamento Estado moderno. Enquanto as elites buscam a irreponsabilidade e não se prendem mais a territórios ou deveres, as classes baixas buscam desesperadamente fortes bases morais que possam ocupar o vácuo existencial que a pós-modernidade criou. Fundamentalismos religiossos e políticos, libertarianos, marxistas, evangélicos, membros da Opus Dei... uma parte de nós nunca foi tão extremista quanro é hoje. Tolos, seguindo cânones e receitas morais unilateralmente criadas. Acabamos dançando na beira dos dois abismos, oscilando entre o caos relativista e o totalitarismo axiológico.

E isso completa o círculo de dominação forjado pelos poderosos; como os extremistas afirmam verdades absolutas (e só eles poderiam fazer frente à elitepós-moderna), acabam se dividindo em facções que lutam entre si, e não enxergam quem são os verdadeiros inimigos; industrais, banqueiros, latifundiários, oligarquias políticas (no fundo, os adversários reais dos verdadeiros cristãos, socialistas, libertários e afins) acabam dominando, nessa luta entre extremos, com um poder colossal sobre a sociedade jamais exercido por nenhum ditador. Com o rebanho dividido, sem pastores ou cães pastores, fica fácil tosquiar as ovelhas ao matadouro, e fazê-las gostarem disso, ainda por cima. Esse poder colossal consiste simplesmente em liberar a fera que existe nos homens, dando-lhes a graça da liberdade ilimitada, desde que não afete os interesses monetários daqueles que, mesmo comandando o mundo, revogam todas as regras, quando deveriam forjá-las. 

A fera humana é liberada para realizar seus instintos mais baixos (sexo, comida, auto-conservação, busca pela glória e fama), o que é feito pelo consumo; isso movimenta a roda do dinheiro e, ao consumir, nossos pequenos lobos humanos enchem os bolsos da elite pós-moderna. É uma manipulação que pode ser entendida por uma analogia: soltando as rédeas do lobo, o cavaleiro, montado no lombo da fera, amarra numa vara um pedaço de carne e o põe em frente ao lobo. Este anda, para abocanhar a carne, mas ela sempre se afasta... a fera nunca vai comer a carne, mas também nunca vai parar de tentar alcançá-la, e o cavaleiro pode apontar a vara na direção que quiser. E é oferecendo essas ilusões de prazer que o sistema capitalista faz o mundo marchar para onde ele quer e, sem as rédeas, este pensa que marcha para onde bem entende!

Podem perguntar-me o que fazer para combater essa situação. Sobre como destronar o Príncipe da pós-modernidade que, despido da coroa do Estado moderno, hoje se mostra como um sistema caótico e autofágico, o capitalismo, que divide para imperar. Eu não sei. A única coisa que realmente sei é que esse modo de vida pós-moderno, imposto goela abaixo, não é tolerável. Na Europa, o epicentro das grandes revoluções da humanidade, a população não aceita o domínio econômico e ideológico (ou anti-ideológico) dos 1%, enquanto no mundo árabe a agitação continua, relativamente oculta do mundo pelo silêncio da mídia, após a super-cobertura sobre os levantes iniciais contra as ditaduras do norte africano. Na Islândia, uma ilha esquecida no norte da Europa, a população derrubou o próprio Estado, os bancos e os industriais e, democraticamente, sem derramar uma gota de sangue, nacionalizou os principais setores da economia, as instituições financeiras-chave, marginalizou os partidos outrora hegemônicos (os representantes da nova, e velha, política pragmática, crua, voltada para os próprios poderosos). Uma nova e revolucionária Constituição foi aprovada por plebiscito popular, e novos partidos de esquerda chegaram ao poder. A lição do povo islandês é clara: não fizeram opção pelo individualismo relativista, que, ao gosto dos bancos, destruia a universalidade das verdades e, muito menos, escolheram o totalitarismo ideológico. Decidiram que, coletivamente, encontrariam um novo sentido pela vida, em um espaço de debate democratizado, onde todos são iguais e, por sua vez, discutem entre si, sinceramente, em busca das melhores alternativas para a coletividade, objetivando o bem-comum, que é bem de todos. Essa moral procedimental, tanto cara a Habermas, e a democratização das discussões sociais, bem como a construção de uma infraestrutura econômica que permita a todos serem verdadeiramente iguais (e isso exige a presença de um Estado de bem-estar social que possa garantir a igualdade material entre os cidadãos, evitando que os donos da economia se tornem donos do Estado), são requisitos vitais para construir o futuro. Um futuro glorioso, tantas vezes adiado pelos donos do poder, mas, finalmente, ao alcance de nossas mentes e braços. A sua única condição de realização é um verbo temido, que faz as elites perderem o sono: rebele-se! Para mim, o "rebele-se'' é o único sentido da vida que pode me realizar e tirar-me do vazio existencial, mórbido, suicidante, sombrio; é a luz da aurora a dissipar as trevas de uma noite que já dura milênios para a humanidade. Este dia que virá será "o'' nosso dia. A realização da finalidade da história, a vinda de Cristo, a queda do capitalismo.

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