quarta-feira, 22 de março de 2017

CORTAR (N)A CARNE, TERCEIRIZAR A CARNE: DIVIDIR PARA IMPERAR


Onde antes existia um emprego, vão existir pelo menos três ou mais. Onde antes se pagava quase outro salário para manter um trabalhador, agora não se pagará mais nada. Onde antes indenizações e verbas rescisórias eram calculadas às dezenas de milhares, hoje o custo para a empresa com despesas do tipo pode chegar a zero.

Parece propaganda partidária, peça publicitária ou um discurso do Deng XiaoPing, mas esses vão ser os possíveis efeitos da nova lei da terceirização, talvez a medida mais importante emplacada pelo governo (até mais que a PEC dos gastos). Mas algo tão bom assim nem parece ser verdade, não é? E não é mesmo. A geração de empregos e de renda (para quem?) com a terceirização irrestrita e ilimitada (que tal montar uma empresa de terceirização educacional? Excelente para um país que lidera todos os rankings na área...) vai ser paga ao custo de uma renda menor para o trabalhador, precarização das condições de trabalho, imensas dificuldades para garantir direitos (e aí, o trabalhador vai processar quem em busca dos seus direitos? A mãe Joana?).

A terceirização vem como uma das peças centrais em um engenhoso quebra-cabeça montado pelo governo pra gerar um crescimento econômico de curto prazo, mais um "voo da galinha'' que conhecemos tão bem. Nisso, a limitação dos gastos públicos, a liberação do FGTS, a reforma da previdência e o "pacote'' de privatizações só terão sentido em um país onde se possa terceirizar tudo: ora, os cidadãos vão ser obrigados a trabalhar mais para se aposentar e vão usar o dinheiro do FGTS para novas rodadas de consumo, gerando assim demanda por serviços e bens, e assim por empregos para que alguém os produza - o um custo menor. O empresário livra sua barra com o dinheiro extra, diminui suas dívidas e pode pensar em crescer - terceirizando toda a parafernália trabalhista.

O x da questão é que, no médio prazo, a renda do consumidor-trabalhador vai cair (terceirizados ganham em média 30% que os demais funcionários) ao ponto em que o consumo vai se reduzir (e o principal motor da nossa economia é o mercado interno, e não as exportações, que tornam o modelo da terceirização exitoso essencialmente em países ditatoriais e que controlam sua moeda com mão de ferro - vulgo China) e a crise vai recomeçar novamente. O sucateamento dos serviços prestados pelo Estado - que agora poderão em boa parte ser terceirizados - só vai piorar ainda mais a vida do povo comum. Para a geração que virá, será mais difícil ter acesso a saúde e educação de qualidade (sabe aquele projeto dos planos de saúde "populares'' do governo?) e, por consequência, vai ser praticamente improvável ascender socialmente. Trabalhando até os 65 anos, sem saúde, sem assistência, sem acesso pleno aos direitos trabalhistas, o futuro do Brasil é um verdadeiro inferno - para a maioria, por que os grandes grupos que monopolizam os planos de saúde, a construção civil e os bens de consumo vão permanecer faturando alto. São os destinatários de todo esse "esforço'' de "salvação''.

Mais do que um atentato à Constituição, o que ocorreu hoje na Câmara dos deputados foi mais uma pá de terra no túmulo da democracia. Já sabíamos que nossos "representantes'' são meros traficantes de influência a serviço de seus doadores/corruptores, e aprovar leis sem um mínimo de discussão ou debater, a toque de caixa, era comum desde que Santo Eduardo Cunha resolveu escancarar a lógica do salve-se quem puder. A derrota real é saber que "os dois lados'' (bem simbolizados por famosos alimentos) vão se alternar entre a omissão e o protesto isolado; que o "cansaço'' de quase três anos de guerra civil de opiniões e operações policiais diárias vai impedir qualquer manifestação maior de indignação popular; que o sucesso efêmero que virá da economia vai embasar uma possível "anistia geral'' para a quadrilha suprapartidária que quer extinguir não só a justiça do trabalho, mas a própria ideia milenar de "justiça'' em todos os aspectos da vida social do país. A morte dessa senhora, já em estado terminal, vai vir pelo cansaço, pela aceitação de que o que "sempre foi assim'' vai "permanecer assim''.

"Dividir para imperar''. Ou terceirizar. Pelo menos eles leram Maquiavel. O pagamento do custo da crise, que deveria ser dos setores mais se beneficiaram do que a causou (industriais, governo e bancos, beneficiados pelas políticas malucas que levaram Dilma à lona), mas o "corte na carne'' ficou mesmo para o trabalhador.

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