Já se vão alguns anos desde que as eleições na cidade das garoas alternam entre a regra do marasmo e a exceção das esperanças renovatórias frustradas, em um verdadeiro ciclo da mediocridade.
Agora, em 2026, depois da renovação de Izaias Régis (2012),
três períodos de marasmo (2014, 2016 e 2018), uma última renovação (2020) e
outras duas eleições de marasmo (2022 e 2024), estamos a caminho de mais um
pleito banal, para completar a regra de três marasmos antes de uma renovação
que, em tese, vai reiniciar o ciclo. Mas, se depender do atual Prefeito e de seu grupo político, renovação é a última coisa que vai acontecer em Garanhuns nas próximas eleições. Será mesmo?
No meio desse ciclo,
não há dúvidas de que o personagem principal é o deputado estadual Cayo Albino,
filho-herdeiro do Prefeito Sivaldo e principal aposta do grupo político que dá
as cartas em Garanhuns para não apenas renovar a vaga de deputado estadual para
a família, mas também começar com o pé direito a marcha das eleições de 2028. A
vitória do jovem Albino com uma boa votação aumentará a margem para que o
Prefeito possa decidir com mais autonomia quem será o candidato à sucessão –
provavelmente seu irmão, o atual presidente da Câmara de Vereadores, ou o
próprio Cayo.
No jogo, está a manutenção de como Garanhuns vem sendo
governada hoje, ou seja, uma repetição trágica dos últimos 30 anos, com grandes
maiorias na Câmara, muitos cargos distribuídos, obras sonrisal e sujeição a
dirigentes partidários de fora, com o plus do orçamento secreto, das emendas
parlamentares, dos grandes eventos praticamente mensais e do emprego
generalizado da família do Prefeito em cargos públicos. Só o que mudou mesmo
foram as cores do prefeito de plantão no poder.
E é justamente esse plus que pode quebrar a regra do marasmo/renovação em Garanhuns.
Em interessante levantamento (fonte: Emendas
parlamentares distorcem competição eleitoral - 09/10/2024 - Opinião - Folha),
a Folha de São Paulo revelou que, quanto mais recursos os prefeitos recebem do
orçamento secreto e de emendas parlamentares, maior a sua taxa de reeleição,
que sobe de 78% (quando a cidade recebe menos de R$ 847,90 por eleitor) para
98% (quando se recebe R$ 2.543,70 por eleitor).
Consta que, entre 2021 e 2026, Garanhuns recebeu R$
38.060.892,05 desse tipo de recurso (fonte: Painel
das Emendas Parlamentares Individuais e de Bancada — Tesouro Transparente) e, considerando que a cidade tem 99.649 eleitores, isso representa R$ 381,94 em
emendas por eleitor. Na última eleição (2024), R$ 42,33 por eleitor.
Embora seja menos da metade que o piso da reeleição, ainda
assim um candidato apoiado pelo atual Prefeito (caso o ritmo das emendas
transferidas a Garanhuns se mantenha) é de mais de 70%.
À primeira vista, pode parecer que Garanhuns está condenada
a ser governada pelo próximo da linha de sucessão da dinastia Albino. Mas será?
Para efeito de comparação, no mesmo período (2021-2026), a
pequena cidade vizinha de Brejão recebeu R$ 32.298.346,00 em emendas, ou seja,
R$ 3.325,95 por eleitor; no ano da última eleição, em 2024, nosso índice de
emenda por eleitor ficou em R$ 991,04. O mesmo índice, aplicado em Serra
Talhada foi de R$ 1.023,25 por eleitor, e cerca de R$ 257,83 apenas em 2024.
A diferença entre essas duas cidades é que, em Brejão, a
prefeita no poder não era candidata à reeleição e não conseguiu eleger o
sucessor (mesmo com quase mil reais por eleitor investidos na cidade), mas a
Prefeita de Serra Talhada, candidata à reeleição, conseguiu vencer facilmente,
com 57% dos votos válidos (fonte: Apuração
das Eleições em Serra Talhada (PE) | Eleições 2024) e apenas R$ 257,83 por
eleitor para gastar em obras e ações na cidade.
Ou seja: embora o dinheiro das emendas e do orçamento
secreto seja importante, não é capaz de, quando os valores são mal aplicados,
definir os rumos eleitorais de uma eleição.
Nesse quesito, Garanhuns patina com dezenas de obras
paradas, como o Cristo do Magano, o Museu do FIG, a CEAGA e intervenções no
Parque Euclides Dourado e mega-obras como o Hospital Municipal – que não se
sabe quando nem se será inaugurado. Ora, se as obras já estão a ritmo de
bicho-preguiça e a cidade está longe de ser uma grande destinatária de emendas,
não é de se se impressionar que as emendas não sejam capazes de dar muitos
poderes para o atual Prefeito de Garanhuns impor alguém da família real como
candidato favorito em 2028.
Há, no entanto, outro fator que pode definir os rumos das
eleições atuais e das eleições de 2028 – por que esse mesmo fator foi
definitivo em 2024.
Em Garanhuns, 66,87% do pessoal empregado pela Prefeitura e
Câmara de Vereadores é de contratados por “excepcional” interesse público
(setembro de 2026):
Fonte: Garanhuns - TomeConta
Quase todos os 3.578 contratados têm como data de ingresso
os primeiros meses de 2026, possivelmente se tratando da renovação de contratos
antigos. Em setembro de 2024, a cidade tinha 3.014 contratados (60.30% do
total), o que representa um pouco menos que os dias de hoje, mas foi o bastante
para o resultado se refletir nas urnas: Sivaldo Albino foi reeleito com 71% dos
votos (fonte: Apuração
das Eleições em Garanhuns (PE) | Eleições 2024).
Em dois anos, o número de contratados em Garanhuns aumentou
cerca de 18%, e estamos na reta final das eleições 2026 com um exército de 3.822
potenciais apoiadores e cabos eleitorais, dentre contratados e comissionados.
A gangorra parece se inclinar, novamente, a favor da família
Albino, devido ao peso extra dos milhares de contratados.
Outro fator, porém, caiu como um raio nos planos
continuístas/familiares do Prefeito. A Resolução TC nº 296/2025 do Tribunal de Contas de
Pernambuco (TCE-PE), estabeleceu que os municípios do Estado deverão reduzir o percentual de contratados a 50% do total de pessoal empregado em dezembro de 2026 e, até as
eleições de 2028, esse percentual não deverá ultrapassar 30%.
Para o prefeito de Garanhuns, isso significa perder mais da metade dos
3.578 contratados e é um severo golpe no plano familiar de continuidade no poder, sob pena de ter suas
contas rejeitadas e se tornar inelegível, bem como cometer ato de improbidade
administrativa.
Mas, dentre esses cargos perdidos, certamente não estarão os da família do Prefeito.
Embora seja difícil mapear todos os parentes ocupando
funções públicas, pode-se identificar pelo menos 8 integrantes das famílias
Albino e Rodrigues (fonte: https://drive.google.com/file/d/1EGiJLdufkoV1ozzCY_tDiBhc_IwpEM-u/view?usp=drive_link),
o que inclui três secretários municipais (Educação, Obras e Cultura) e o
presidente da Câmara de vereadores.
Só o Secretário Fá Albino, das obras, controla, em 2026, R$ 90.923.448,88;
Sandra Albino, da cultura, R$ 48.567.000,00; o vereador e presidente da Câmara Johnny
Albino vai controlar R$ 25.506.000,00; Wilza Vitorino, da educação, R$ 229.660.546,41.
Esses nomes controlam, atualmente, 49% do orçamento geral de Garanhuns (fonte: 34-20260608155219.pdf,
p. 47-59).
Mais particularmente, dentre parentes com cargos
comissionados e os próprios secretários e o Prefeito, o total anual de salários
que a família Albino recebe de Garanhuns fica em cerca de R$ 1.496.750,96. Isso
tudo mostra que, no entender da Ciência Política, a família Albino é uma
oligarquia, ou, como definiu o cientista político Vanuccio Pimentel, um “clã”,
uma organização familiar de caráter informal na qual os parentes distribuem
entre si cargos públicos e a gestão de orçamentos, visando se eternizar no
poder (fonte: New_Tese_Final.pdf).
Para manter o controle da Prefeitura, o clã/família distribui recursos entre seus próprios
membros para manter a “rede de clientes” que dependem direta ou indiretamente
da família, como os quase 4 mil contratados e comissionados que hoje trabalham para
o Município.
São esses clientes que mobilizam eleitores, vitaminados pelo controle orçamentário familiar do orçamento público, para que o candidato da situação familiar sempre vença as eleições e reproduza o modelo para a geração política seguinte (PIMENTEL, Vanucio. A primazia dos clãs: a família na política nordestina. Disponível em: New_Tese_Final.pdf. Acesso em 24 de setembro de 2026. P. 90).
A coisa piora quando vamos para a economia local.
A aposta
dos Albinos, no poder há cinco anos, é nos eventos de massa, muito ao estilo
das festas de São João de Caruaru. Ou seja, transformaram eventos que já
ocorriam na cidade (como o Festival de Inverno, o Viva Dominguinhos e o Natal
dos sonhos) em shows de massa, com o notório exemplo do FIG 2026, cujo
investimento ficou estimado em R$ 35 milhões de reais (fonte: https://www.instagram.com/p/DcbU4FmlawH/),
sendo R$ 15.348.800,00 apenas para as grandes atrações da Praça Mestre
Dominguinhos.
O valor é chocante, já que, em 2023, o total investido não
passou dos R$ 11,2 milhões de reais (fonte: https://www.panrotas.com.br/100xbrasil/destinos/2023/07/festival-de-inverno-de-garanhuns-pe-tem-investimentos-de-r-112-milhoes_198355.html).
A Prefeitura, no entanto, fez divulgar na mídia que o FIG
2025 (ainda não temos os dados completos da edição de 2026) teria movimentado
mais de R$ 200 milhões, elevado a ocupação da rede hoteleira para mais de 90%, gerado alta na receita de bares e restaurantes
acima de 30% e melhorado a receita do comércio em 15% (fonte: https://penews.com.br/33o-fig-movimenta-r-200-milhoes-e-atrai-mais-de-2-milhoes-de-pessoas-a-garanhuns/).
A percepção do povo de Garanhuns,
no entanto, foi de que a demanda por serviços caiu quase 50% já entre 2023 e
2024 (fonte: https://www.diariodepernambuco.com.br/viver/2025/07/7793868-fig-2025-tem-baixa-expectativa-de-publico-e-de-movimentacao-financeira.html)
o que afetou muito a percepção negativa sobre o FIG 2025. Ou seja, donos de
bares, restaurantes e hotéis, além dos comerciantes em geral, perceberam que o
perfil do turista mudou: saiu aquele que se hospedava por dias na cidade para
vir, em seu lugar, o excursionista, aquele turista do “bate e volta”, que, em
2024, já eram 44,95% do total de visitantes.
Em que pese a Prefeitura alegue que 59% dos turistas
afirmaram ter passado mais de três dias no evento em 2025, esse percentual
(mesmo se o considerarmos inflado) é uma queda drástica diante dos 87% que
passavam mais de um dia na cidade hospedados em 2022 e 2023. A queda dos
turistas hospedados – os que pagam diárias de hotéis, almoçam, jantam e compram
lembrancinhas – e sua substituição pelos excursionistas decorre da mudança do
perfil do evento, mais voltado aos shows da Praça e menos aos polos descentralizados,
que perderam a programação diária e cultural que sempre foi a marca do evento.
Venhamos e convenhamos: aumentar a receita do comércio em
15% no mês da principal festividade do município é um resultado medíocre. A
percepção sobre o resultado ruim do FIG 2026 aumenta quando olhamos os empregos
gerados em julho de 2026 (fonte: https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiNWI5NWI0ODEtYmZiYy00Mjg3LTkzNWUtY2UyYjIwMDE1YWI2IiwidCI6IjNlYzkyOTY5LTVhNTEtNGYxOC04YWM5LWVmOThmYmFmYTk3OCJ9&pageName=ReportSectionb52b07ec3b5f3ac6c749): entre demissões e admissões, foram meros 79
empregos de saldo que, segundo a Prefeitura, sustentaram quase R$ 200 milhões
em movimentação de recursos!
Em 2025, foram 97 vagas criadas a mais que demissões, o que
demonstra que, mesmo com R$ 35 milhões de reais em gastos públicos municipais,
a cidade gerou menos empregos em 2026 que no ano anterior.
Quando olhamos para os outros eventos (Viva Dominguinhos,
Garanhuns Jazz Festival, Festa de Santo Antônio, Encantos do Natal etc.) a
geração de empregos se mantém tímida, chegando ao pior nível justamente em
dezembro de 2025, quando a cidade perdeu 60 vagas, bem em meio ao ápice do
evento do Natal.
Isso aconteceu mesmo com a Prefeitura investindo mais de R$
7 milhões em 2025, o que, somado às edições de 2021 até o próprio ano de 2025,
gerou R$ 26 milhões em gastos (fonte: https://www.blogdocarloseugenio.com.br/prefeitura-destina-r-76-milhoes-para-o-natal-de-garanhuns-entre-2021-e-2025-investimento-ultrapassa-r-26-milhoes-de-reais/),
mesmo após o Tribunal de Contas apontar gastos excessivos e sem justificativa e
ordenando a limitação de despesas (fonte: https://g1.globo.com/pe/caruaru-regiao/noticia/2025/09/01/tce-pe-limita-gastos-com-decoracao-para-projeto-encantos-do-natal-em-garanhuns-apos-apontar-sobrepreco.ghtml)
e ter detectado que, entre 2020 e 2025, o gasto com o evento (principalmente
com a Casa do Artesão, a responsável pela decoração) aumentou em 472%.
É desnecessário dizer que, já como o evento do Natal é mais
decorativo, afora os desfiles e poucas atrações, o principal perfil do turista
é justamente o excursionista.
Tudo isso demonstra que o “projeto econômico” do grupo no
poder em Garanhuns, pelo menos no que diz respeito à geração de riqueza e de
empregos, deu e está dando errado. Montanhas de dinheiro são gastas em eventos
que não geram empregos, receitas ou faturamentos que justifiquem tantos gastos.
Esse desperdício, ao lado do pouco que foi transferido em emendas parlamentares
à cidade, só reforça a suspeita de que o incentivo às festas é uma política
deliberada para satisfazer muitos fornecedores privados amigos do poder e
aliciar a população com festas e mais festas.
Isso já seria ruim o suficiente, mas tem mais: a Prefeitura,
em que pese estar torrando dezenas de milhões nas festas, teve que pedir
emprestado. Foram R$ 120 milhões em maio de 2026, R$ 36,3 milhões contratados
em abril de 2026 e R$ 100 milhões tomados em maio de 2023, totalizando R$ 256
milhões em empréstimos (fonte: https://www.blogdocarloseugenio.com.br/sivaldo-oficializa-novo-emprestimo-para-a-prefeitura-de-garanhuns/).
Somente o empréstimo de R$ 100 milhões custará outros R$ 40 milhões em juros e
Garanhuns poderá perder até 16% das verbas federais que lhe são repassadas,
tendo em vista que foram usadas como garantia pelo empréstimo (fonte: https://www.instagram.com/reel/DQMBZAekcVm/).
O alto endividamento vai comprometer as finanças municipais até cerca de 2034.
Estamos diante de um futuro no qual a Prefeitura investe o
que tem e o que não tem em grandes eventos de massa e se justifica com base em
números fantasiosos; em uma máquina pública inchada que será alvo de cortes em
breve.
E Garanhuns se reduziu a isso: uma família que controla
cargos, verbas e pessoas, buscando reproduzir o próprio poder nas próximas
eleições, sempre dentro da unidade familiar. Para esse fim, o desenvolvimento
da cidade é sacrificado e o município se endivida, se afunda em obras sem
propósito e vê cada vez menos empregos e empreendimentos serem gerados, ainda desperdiçando os poucos recursos que recebe em emendas parlamentares com obras sonsiral e eventos de massa que não geram retorno. A herança maldita de endividamento, obras paradas, decadência econômica, desperdício de recursos e revolta popular pela concentração de cargos na família pode ser o ingrediente para que os planos dinásticos dos Albino sejam abalados.
Mas é esse ciclo de atraso que está a caminho de ser renovado
nessas eleições de 2026. Se o deputado Cayo Albino vencer as eleições no
município com uma margem superior a 30 mil votos, será o óbvio candidato a
prefeito em 2028, ou o seu tio será. A derrota de Cayo, nesse sentido, ou se a sua
votação na cidade ficar abaixo dos 20 mil votos, representaria uma luz de esperança
para que a cidade se liberte da família que a aprisionou e tente romper o
marasmo em 2028 com uma verdadeira renovação.
Só depende do eleitor garanhuense decidir se quer mais 6
anos da família Albino se perpetuando no poder, ou se vai iniciar o grito de
mudança que ficará ensurdecedor em 2028!
