Os solavancos dos ônibus fizeram com que batesse a cabeça na janela. Acordando de súbito, piscou várias vezes para adaptar seus olhos, já cansados pela idade e regrados por grossas lentes de óculos, ao sol forte que lhe banhava pela janela. Um mundo muito claro, que misturava tons de amarelo, branco e marrom, ia lentamente tomando forma, enquanto seu coração se acalmava e, devido ao trilhar constante do ônibus, entendia que ainda não chegara ao seu destino.
Logo, lhe sorria tristemente uma paisagem há muito esquecida, cujos poucos pontos de verde vivo se destacavam ante ao império monocromático dos arbustos e espinhos secos; aqui e ali, filetes de água eram arrodeados por braças de verde, volta e meia com reses magras a lhes margear, como uma pequena ilha de fartura em meio ao deserto. As casas e seus currais ou galinheiros, a maioria fechada ou em ruínas, pareciam sempre observar as idas e vindas dos veículos naquela estrada toruosa.
Ajeitando-se na cadeira, Artur sentia a rigidez no pescoço regada a dor e desconforto. Havia dormido demais, pensara, e já devia ou ter passado de onde descer, ou perdido a chance de comprar algo para comer com os vendedores de estrada que sempre tinham alimentos frescos. Sentiu os roncos da fome e a sede; o calor lhe fazia rolar grossas gotas de suor por dentro da camisa de botões e desenhava rastros úmidos na camisa branca bem cortada, obscurecendo ainda mais as linhas azuis que recortavam a peça. Moveu o pescoço para os lados, inutilmente tentanto aplacar a dor, quando, ao olhar para a sua esquerda, rumo à janela do lado oposto ao seu, reconheceu com um clarão de tremor a ponte do rio de baixo.
Estava lá, sim, e não sabia dizer se bem ou mal; mas que estava lá, estava, cortando a estradinha de barro que se comunicava com a pista de asfalto e, serpenteando, descia serra abaixo, até um rio, que era vencido por uma ponte de não mais de que dez metros. Aquele fundo de vale, ou "grota", ainda se destacava por ser muito verde, e, aos olhos do passageiro, foi como se tivesse passado ali ontem.
O fato de ver a ponte indicava que estava na iminência do fim de sua viagem. Sentiu um frio de espectativa e ansiedade; pensava mil coisas; não focava em nenhuma delas. Resolveu, como sempre aprendeu, cerrar os dentes e ir adiante, esperando para ver se iria ao cadafalso ou para bodas de boas vindas.
Logo o ônibus reduziu em velocidade e ele pôde ver, ao longe, um grande portal de madeira, com os dizeres clássicos de boas vindas, e aquele nome do qual somente se lembrava quando manuseava seus documentos de identidade: Santa Rainha Isabel. Viu algumas árvores ladeando o portal, as casinhas umas coladas nas outras, as janelas de madeira e as portas duplcas; viu gente conversando nas calçadas ou através das portas abertas, e viu sacolas de pano, garotos com carroças carregando mercadorias e ouviu o burburinho de centenas de vozes, músicas e gritos: era dia de feira.
De tanta gente e de tantas coisas que viu, pouco pôde guardar, esperando que o ônibus parasse e que todos começassem a descer; Varrendo tudo de sua mente - e exercendo uma extraordinária capacidade de focar no objetivo imediato em momentos de grande pressão - Artur desceu do ônibus, foi à mala interna e pegou suas duas malas. O reflexo que viu de si na porta do ônibus foi o de um homem de meia idade, meio calvo, meio cabeludo além do grisalho, de nariz aquilino e suiças modestas, de uma tez branca muito queimada pela sol - tudo isso equilibrado em uma barriga levemente ressaltada e braços ainda firmes. Na sua visão, era magro; na dos outros, nem tanto.
Naquele sol, saiu com a camisa social ensacada na calça de brim e nos sapatos escuros, carregando as duas malas e lamentando não ter trazido um boné. A Rodoviária da cidade era pequena, praticamente uma casinha no meio da praça central, cujas duas ruas principais se estendiam, como dois grandes braços abertos, na direção da rodovia, convidando aqueles que entram no seu abraço a aolhar, imediatamente, para a Matriz. Hoje, as duas ruas estavam, da metade das duas ruas em diante, tomadas por barracas e sacos estendidos no chão, com todo tipo de mercadorias. Animais rondavam ali, desde burros a cães e gatos vadios, enquanto frutas, carnes e farinhas mudavam de mãos descontroladamente.
A caminhada foi longa, e Artur pôde ver que até as coisas ruins e fadadas ao declínio, como aquela sua cidade, podiam crescer e mudar. Viu que muitas mais casas existiam agora, mas achou a praça principal menor, como se a de sua lembrança juvenil fosse tão grande que abraçasse todo o mundo, e não apenas os despreocupados santaisabelitanos. O tamanho da feira e o número de pessoas ali é que lhe impressionou.
Após subir e descer algumas ladeiras, já meio longe da feira, viu que as pessoas foram escasseando até que apenas uma ou outra mulher de lenço na cabeça passasse pela rua, ou algum moleque gritando ou soltando pipa. Andou e andou, até chegar onde queria e, ao mesmo tempo, não queria. Pensava se não era possível voltar dali, e mandar uma carta depois dizendo que não deu, que houve um contratempo. Depois, se deixou vencer: não aguentaria outra viagem daquelas a não ser após uns bons dias de descanso.
Parou na frente de uma casa gradeada, com muro baixo, branquinha como uma nuvem e como a dona, que também se chamava Branquinha. Botou as malas no chão e bateu três palmas, esperando longos momentos de tensão até um rosto sair da escuridão da porta de entrada semi-aberta; e lá estava a tia Branquinha, uma idosa simpática de pano na cabeça, que esboçou um largo sorriso quando viu seu hóspede.
***
- Você tá mais magro, meu filho - Foi o que ela disse, após cobrar e receber a benção e dar um "cheiro" e um abraço no sobrinho.
Do alto de seus oitenta ou noventa anos, não sabia ao certo, a tia ainda estava em plena forma. Apesar de vê-la há pouco menos de cinco anos, aos olhos de Artur, a tia já era daquele jeito já há algumas décadas. Sempre firme, pouco tinha de doente, a não ser o pé direito, do qual mancava levemente e do qual nem os médicos, nem as rezadeiras, sabiam o que afetava.
- Samira saiu, e eu tô sozinha aqui com a dona Zefa - Ela dizia.
Dentro da casa, Artur foi brindado por um frescor, misturado ao aroma de móveis e panos velhos, mas dignos. A casa ainda era sem cobertura, e aqui e ali viam-se as luzes por dentre as telhas, que iluminavam a sala pequena decorada por móveis de mogno, um grande armário onde estavam uma televisão, muitas fotos de familiares e, ainda mais, estátuas de santos e a Bíblia, no lugar mais alto. Na parede, quadros de Padre Cícero e de um casal, pintado por cima de uma fotografia, encheram a mente de Artur de emoções diversas. Nunca mais tinha ido ali - não nos últimos quarenta anos. Era estranho pensar que aquela era a mesma casa daquela época tão antiga, porque não parecia, e de fato não era: notou que pelo menos dois quartos a mais, um de cada lado, existiam onde antes só tinha mato, aumentando os quartos para quatro. A cozinha parecia maior e, no que pensou ser a maior novidade, tinha uma porta que evidentemente dava para um banheiro.
Durante todo o tempo, a tia Branquinha falava. Perguntou como foi a viagem, respondia ela mesma que aquele ônibus era uma desgraça, comentava sobre a desorganização da feira e as brigas constantes, e indagava se no sul era assim, e ela mesma respondia: não, não devia de ser, porque a gente tirava pelo próprio Artuzinho, que foi para lá sem saber segurar direito um garfo e se tornou tão educado agora. Artur falava pouco, olhava muito ao redor e tentava sorrir. Sentado na cozinha, com as malas jogadas na sala, sentia o aroma do feijão no fogo, dos temperos, e percebia que aquilo não havia mudado. "Aquilo" o fazia acreditar que realmente estava onde estava.
- Tia, eu não vi a casa dos Medeiros quando vinha para cá - disse.
Branquinha, tão tagarela, fcou muda. A dona Zefinha, que cortava alguma coisa em uma tábua, parou de cortar, e ses golpes na madeira, tão cadenciados, cessaram. Aquela tomada de fôlego antevinha algum assunto espinhoso.
- Nêgo, e seu Medeiros não morreu? - Foi o que a tia conseguiu dizer.
- Disso eu sei, mas a casa morreu também?
Ao fundo, a dona Zefinha exibia um sorriso discreto, e voltou a golpear a tábua, mas falou alto:
- Menino, o povo dali vendeu a casa, quebraram todinha, e agora virou aquela pracinha.
Artur lembrava que a dona Zefinha, que fazia serviços na casa da tia desde antes dele mesmo sair da cidade, gostava de falar as coisas no diminutivo. É claro que ele havia visto a praça no lugar onde deveria estar uma daas melhores casas da rua - não da cidade, da rua. Seu Medeiros não era rico, mas não fazia feio; tirava a diferença entre riqueza e pobreza no esforço. Artur gostou de pensar que se o velho padeiro pudesse ver a praça sem graça onde sua bonita casa existira, iria ele mesmo quebrá-la para fazer a casa de novo, melhor que antes. Ou era do jeito dele, ou não era, e o jeito dele era sempre o melhor.
- Esse povo não tá mais por aqui - aturdiu a tia - e até a gente vai na praça dar uma voltinha. Quando tem o rapaz da pipoca.
Artur não conseguiu mais se segurar. Passou por toda aquela volta para fazer a pergunta que fez com que viesse ali. Na declaração da tia, já havia um prévia de resposta, e ele não gostou.
- Cecília não mora mais aqui?
A velha olhou para os olhos do sobrinho e baixou a fronte. Debulhava alguma coisa com os dedos, sentada.
- E eu sei? - foi o que conseguiu responder a tia, olhando ameaçadoramente para Zefinha.
- Com quem eu sei? - disse Artur.
Vendo que não tinha mais jeito, Branquinha silenciou, tomou coragem e parecia resolvida a falar, quando escutaram a porta abrindo e alguém entrando. O silêncio reinou na cozinha, até uma moça loira de sardas bem pronunciadas entrar ali.
- Bença tia - disse Samira, olhando com surpresa para Artur.
- Opa - conseguiu dizer Artur.
Samira respondeu ao cumprimento sorrindo, mas logo se apagou. Tomou água e chamou alguém para a cozinha; era Andrézinho, o seu filho. Artur sabia da existência dele, mas nunca o vira, nem por foto. Mais moreno que a mãe, mas com os mesmos olhos sapecas, o menino olhou com desconfiança o recém-chegado. Artur achava que, naquela idade, devia agir assim com estranhos também.
- Fale com seu primo, vá - disse a tia, em tom autoritário.
Estendendo a mão, o menino cumprimentou Artur, mas se limitou a isso.
***
O almoço foi pouco depois. Como era um sábado de aleluia, naquela casa só se comia peixe até a páscoa, e o almoço foi peixe de coco. Artur comeu dois pratos em silêncio, enquanto Samira falava como estava a feira e quem havia encontrado. Ela gostava de fofocas: narrou todas as brigas, confusões e até como a polícia bateu ali mais cedo, prendendo um rapaz do sítio que usava pesos adulterados. Aquela predisposição à informação popular por parte da prima interessou Artur, e ele não perdeu mais tempo.
- Prima, o povo dos Medeiros, pra onde foi?
Os pratos e os talheres pararam na hora. Samira, a única que continuou a comer, engoliu o pedaço de peixe e abriu a boca.
- Tão aqui ainda. A filha dá aula na escola. Ela dá o catecismo pra Andrezinho também. O resto não sei.
A despreocupação de Samira fez com que Artur confirmasse o que vinha pensando: ela não sabia de nada do que houve. Mas, para ele, era o bastante.
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