Todo mundo costuma dizer que, para votar em um candidato, é preciso pesquisar sobre ele. Em Garanhuns, o candidato onipresente, nas redes e nas ruas, é o filho do Prefeito, o já deputado Cayo Albino. Mas, além do sobrenome, o que de fato sabemos sobre o rapaz?
Origens
Cayo, como já dito, pertence à ilustre família que já deu a
Garanhuns vários políticos. Filho do prefeito de sua primeira união, Cayo tem
28 anos. Sua primeira “aparição pública” se deu em 2016, quando acompanhou o
pai nas manifestações pelo impeachment de Dilma Roussef. Não chegou a discursar
ou se destacar e, no mesmo ano, não viu mal em seu pai ser apoiado pelo PSB e
pela esquerda na campanha a prefeito.
Derrotado o pai, que foi nomeado assessor especial do
governo Paulo Câmara junto a uma mão de políticos derrotados naquelas eleições,
Cayo tocou a vida. Em 2017, disputou a seleção para agente socioeducativo da FUNASE,
ficando em 190º lugar (fonte: 1501275848_Resultado
Preliminar Garanhuns ERRATA.pdf). Não se sabe se trabalhar com a correção
de jovens infratores era um chamado vocacional ou apenas um tiro no escuro; o
fato é que não há registros de Cayo ter seguido uma ocupação naqueles anos,
fora ter cursado Direito e se formado alguns anos depois.
O homem: nasce um príncipe
O ano de 2020 mudou a vida do nosso candidato. Seu pai,
contra quase todas as previsões, se tornou o novo Prefeito de Garanhuns e ele,
o primeiro-filho oficial da cidade; seu tio, Johny, se tornara também
presidente da Câmara de Vereadores.
Logo trataram de conseguir uma posição condizente com o
status de possível futuro herdeiro do prefeito, e, em 2021, foi nomeado pelo
mesmo tio Gerente de Departamento de Comunicação Institucional/Articulação
Política da Câmara de Vereadores, mas o negócio gerou tanta indignação popular
que o Ministério Público, educadamente, recomendou que o presidente da câmara o desistisse da nomeação (fonte: Blog
Capoeiras: O Agreste é Notícia em 20/02/2021) e o filho do Chefe do Executivo
voltou a engordar a fila do desemprego. O promotor disse que a presença de Cayo
no cargo de gerente (ou estagiário?) era uma quebra direta da Súmula vinculante
13 do STF, que proíbe o nepotismo (nomeação de parentes para cargos
administrativos) no Brasil.
Isso não impediu seu pai de arranjar-lhe um novo emprego na
velocidade da luz: o jovem de 21 anos agora seria secretário-geral da Comissão
de Desenvolvimento do Agreste Meridional (Codeam), no qual ficou responsável
por gerenciar e articular recursos (de quem e para quem, só ele sabe!) e que era presidida pelo seu pai. O
serviço na Codeam logo foi trocado por uma assessoria direta com o padrinho de
seu pai, o deputado federal Felipe Carreras, numa atividade que certamente
serviu para o jovem Albino “observar e aprender” com o já experiente parlamentar.
Buracos não fechados vieram, obras não saíram do papel e uma
crise se instalou na cidade, mas o Prefeito resolveu lançar seu filho como o
candidato a deputado estadual da gestão em 2022. A decisão provocou mais uma
onda de indignação, já que a família Albino já ocupava diversos cargos de poder
e, na percepção do povo, só queria mais um. Isso não abalou o prefeito, que
enfrentou uma campanha difícil para fazer Cayo chegar à ambiciosa meta de
dobrar o Cabo das tormentas para o candidato a deputado estadual daquelas
eleições: os 35 mil votos que analistas projetavam para que ele garantisse sua
vaga na ALEPE.
Para tal, o Prefeito apelou até a João Campos, que era Prefeito
do Recife, para conseguir “uns 3 ou 4 mil votos” para o filho. O áudio desmotivou
aliados e revelou o óbvio: Cayo não seria o candidato a deputado estadual mais
votado na cidade.
As urnas, enfim, desfecharam um duro golpe em Cayo e no
Prefeito: os 32.509 votos, 16 mil deles em Garanhuns, deixaram o infante na
suplência, e o deputado Izaias, que bateu os 22 mil votos apenas na cidade, não
só se tornou deputado estadual, como tinha uma posição de prestígio junto à
governadora eleita. Para Cayo, restou o total R$ 11 mil em multas por
propaganda eleitoral irregular (fonte: Mesmo
após término de campanha, o candidato a deputado estadual Cayo Albino, continua
colecionando multas da Justiça Eleitoral) e a esperança de um dia se tornar
deputado.
João Campos, no entanto, talvez comovido pelo triste pedido
por 3 ou 4 mil votinhos de Sivaldo em nome do filho, resolveu oferecer uma vaga
de Secretário a um dos deputados do PSB, Eriberto, para que Cayo, em 4 de janeiro de 2025,
assumisse a vaga de deputado, principalmente depois que Sivaldo Albino
conseguiu vencer as eleições de 2024 com 71% dos votos e praticamente aposentou
Izaias Regis. As emendas ao orçamento, ou seja, as verbas a que o parlamentar
tem direito, podem ter sido divididas entre Cayo e o deputado Eriberto, mas não
se tem certeza se algum centavo chegou a Garanhuns além do salário das dezenas
de assessores nomeados por Cayo em seu novo gabinete.
Na ALEPE, começou enfrentando diretamente o deputado Izaias
Regis e, devido aos bons serviços (ou falta deles), em 28 de abril de 2025,
recebeu a medalha Osvaldo Ferreira da Silva (Mérito Politico) das mãos do tio,
Johny Albino, presidente da Câmara de Vereadores (fonte: 34-20250429093000.pdf).
Todavia, como o que é bom dura pouco, em abril de 2026, Eriberto
voltou ao cargo e Cayo, ao desemprego. Antes mesmo de pensar em dar entrada no
seguro, existia a expectativa de que o infante favorito de Garanhuns retornasse
logo à ALEPE: o deputado Waldemar Borges se encontrava doente, em estado terminal,
e o próximo a assumir sua vaga seria justamente Cayo, que já assumiu o cargo
provisoriamente em 12 de junho de 2026 e, em 6 de julho, de forma definitiva,
com a partida de plano do antigo colega de partido.
Antes de partir, porém, Waldemar utilizou quase todas as
suas emendas ao orçamento, deixando o jovem Albino sem um centavo para enviar para
Garanhuns, mas com seis meses de mandato titular para turbinar a sua reeleição,
já que, novamente, seu pai apostou em sua candidatura neste conturbado ano de
2026.
E foi no mesmo ano que Cayo se tornou líder da oposição na
ALEPE. Sem mais.
O candidato
Cayo se define, em seu registro de candidatura, como “branco”
e aponta sua profissão como “deputado”. Chama a atenção esse detalhe, já que
ser deputado deveria ser um serviço, um estado transitório, e não um modo de
ganhar a vida. Significa dizer que, caso não seja eleito, Cayo automaticamente
se tornará um desempregado, ou que não sabe fazer outra coisa da vida além de
propor leis e fazer discursos – embora se desconfie que, enquanto sua família
deter o poder, ele sempre terá um cargo para chamar de seu.
Essa informação de ter como profissão “deputado” contrasta
com a que consta no site da ALEPE, onde Cayo se apresenta como “advogado”,
embora não tenha inscrição perante a OAB:
É de se pensar que o “doutor” Cayo tenha se equivocado ao se
apresentar como advogado, já que quem anuncia exercer a advocacia ilegalmente pode pegar de
15 dias a 3 meses de prisão, com multa, por se tratar de contravenção penal
(art. 47 da LCP).
Alega ainda possuir R$ 236.826,19 em bens (principalmente
aplicações de renda fixa), o que não é nada do outro mundo para quem passou
quase um ano e meio recebendo R$ 34.774,64 de salário. Mas, quando comparamos com os bens que
declarou em 2022 (fonte: https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/NORDESTE/PE/2040602022/170001620364/2022/PE),
vê-se um detalhe inusitado: naquele ano, Cayo afirmava ter apenas um veículo, e
no valor de R$ 121.404,00 (considerado de alto valor para a época e, como era
próprio, é difícil imaginar que foi comprado às próprias expensas).
Em quatro anos, Cayo quase duplicou o valor do seu patrimônio,
e isso enquanto era assessor parlamentar e, por um ano e meio, deputado
estadual suplemente e agora titular.
Ainda sobre dinheiro, seus doadores de campanha, até agora, ficaram dentro da família:
os tios Sinval e Senivaldo (10 mil reais e 20 mil reais, respectivamente), e o
próprio pai, Sivaldo (R$ 34 mil), além de R$ 20 mil em recursos próprios. Há apenas
uma exceção: o deputado Felipe Carreras doou R$ 200 mil reais para a campanha
de Cayo (fonte: https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/NORDESTE/PE/20322002026/170002542424/2026/PE)
o que demonstra que o padrinho político tem grandes expectativas na vitória do
afilhado. Até agora, já foram R$ 548 mil em despesas, mas esse valor pode
chegar até R$ 1,2 milhão.
O que causa estranheza nessas doações é que um deputado
federal ponha 200 mil reais na campanha de um candidato a deputado estadual,
exatamente o dobro do que o próprio PSB transferiu para a campanha do infante
Albino. O melhor palpite é que o material e as despesas que serão custeadas
acabarão servindo para os dois candidatos, e talvez mais para Carreras do que
para Cayo.
Mas, fora todos esses números, o que Cayo apresenta de
concreto ao eleitor de Garanhuns?
Em suas redes sociais, não constam propostas para o futuro
possível mandato. Cayo defende, genericamente, uma plataforma difusa em favor da
juventude do Estado (já que é o deputado estadual mais jovem atualmente), sem maiores propostas legislativas. Ele não diz, por
exemplo, onde irá aplicar os R$ 8 milhões de emendas parlamentares as quais
terá direito a partir de 2027.
Entretanto, prefere mais prestar contas de suas realizações
do que fazer promessas: afirma ter apresentado mais de 50 projetos de lei, mas
só constam 49 no site da ALEPE (fonte: https://proposicoes.alepe.pe.gov.br/?field-proposicoes=&field-autores=Cayo+Albino&field-tipo-filtro=projetos&field-proposicoes-filtro=autor).
Seu maior destaque, com certeza, é a PEC 29/2025, o “orçamento
da juventude”, que supostamente define recursos obrigatórios para o jovem em
saúde, educação, assistência social, qualificação, emprego e acesso à
universidade. Embora seja simbolicamente importante, não afeta muito a vida do
jovem comum e não muda ou majora os investimentos que já são realizados pelo
Estado nessas áreas. Há também um projeto que aumenta a proteção a pessoas com
transtorno do espectro autista, sem maiores repercussões.
Seis de seus projetos, faça-se justiça, mencionam Garanhuns:
vão desde a inclusão da festa de São Sebastião no calendário oficial do Estado
até instituir a cidade como área de especial interesse turístico, além de lhe
conferir o título de “terra dos grandes festivais” e garantiu a fixação do
Garanhuns Jazz Festival no calendário oficial do Estado. Com exceção desse
último projeto (que já foi derivado de outro projeto, apresentado pelo deputado
Diogo Moraes) nenhum dos demais trouxe qualquer benefício material para Garanhuns.
Mesmo com praticamente três meses após retornar à ALEPE, o
último projeto de Lei de Cayo foi para conceder “o título honorífico [de
cidadão pernambucano] ao. Michel Moreira Leite”, um médico oftalmologista
radicado em Garanhuns, apresentado em 23 de abril.
Como autor de requerimentos, Cayo foi bem mais econômico, e
apresentou um pedido de informações à governadora e ao Secretário de Defesa Social
indagando qual o efetivo da PMPE nos municípios do Agreste Meridional, com quantitativos
de viaturas operacionais, bem como o efetivo da PCPE, e eventual cronograma de
distribuição de novos agentes da Lei pelo Agreste. Um comentário: sobre os quantitativos
de policiais, bastaria ao nobre deputado consultar os portais da transparência
do Estado ou o Boletim Geral da SDS/PE.
Como exemplo, veja-se o efetivo dos batalhões e unidades da
polícia militar em 2023 aqui (fonte: https://www.pm.pe.gov.br/?mdocs-file=39299).
Garanhuns e região tinham 361 militares atuantes.
Em resumo: o curto mandato de Cayo Albino não foi um
desastre, mas esteve longe do que se espera de um representante do Agreste
Meridional. Suas ações trouxeram pouco ou nenhum benefício para Garanhuns, em
que pese seu patrimônio quase tenha dobrado.
O poder
Tendo em vista que Cayo parece caminhar rumo a ser eleito
(quem sabe não?), é preciso contextualizar o grau de poder que ele terá como
deputado estadual.
Atualmente. Cayo tem 25 assessores em seu gabinete na ALEPE, com 2 coordenadores de expediente, dois assessores adjuntos e um chefe e o resto de assessores especiais (fonte: https://transparencia.alepe.pe.gov.br/pessoal/listagem-servidores), com R$ 2.732.419,08 anuais ao ano só a título de salários dos funcionários. Isso sem contar os R$ 34.774,64 de salário, mais até R$ 60.073,27 mensais a título de ajuda de custo (fonte: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2024/06/25/deputados-estaduais-aumentam-verba-de-gabinete-em-20percent-e-valor-do-auxilio-pode-chegar-aos-r-60-mil-por-mes.ghtml). Ele sozinho, durante os 4 anos de mandato, poderá custar R$ 2.883.516,96.
Neste ano, o filho do Prefeito gastou mais de R$ 60 mil em
diárias (viagens, almoços e hospedagens), conforme informa a ALEPE (fonte: Painel_Diarias),
o que só aumenta o custo de mantê-lo como deputado estadual.
Além de todo esse dinheiro para despesas com o mandato, resta
a cereja do bolo: R$ 8.047.000,00 a título de emendas ao orçamento estadual. Ou
seja, com poucas limitações, Cayo terá, nos quatro anos enquanto deputado, R$
32.188.000,00 para investir como quiser e onde quiser, desde que a maior parte
se dê em ações de saúde. Daí tanto investimento na candidatura de Cayo: com R$
256 milhões em empréstimos a pagar, as emendas de Cayo podem salvar o Prefeito
de Garanhuns em algum momento.
Diante de tudo isso, as perguntas a se fazer são: você confiaria
R$ 32.188.000,00 para que alguém que nunca trabalhou fora das indicações
políticas do pai administre como quiser? Deixaria que um deputado que redigiu
49 projetos de lei, vários deles concedendo títulos de cidadão a amigos, e
outros meramente simbólicos, possa legislar sobre os seus impostos, taxas, segurança
pública etc.? Confiaria em um deputado que, a cada eleição, quase dobra de
patrimônio?
P.s.: essa não é uma insinuação de que o deputado Cayo tenha
cometido alguma irregularidade; não há registro disso. É apenas um
questionamento sobre se é desejável que nossos políticos enriqueçam nos seus
cargos ou não.
O fato é que Cayo é um retrato da gestão Albino nas coisas públicas: muita propaganda, pouca efetividade e, principalmente, muito despedício de dinheiro público.
O futuro...
Nesse sentido, Cayo Albino poderia ser um cidadão qualquer. Talvez,
se o destino não tivesse posto seu pai na Prefeitura, seria um jovem advogado
(dessa vez com a OAB) ou talvez tivesse tentado novamente a seleção de agente
sócio educativo da FUNASE. O fato é que ele é, hoje, não apenas o filho do
Prefeito, mas um deputado de realizações modestas, altos custos e gastos e é
uma peça fundamental para que sua família mantenha a Prefeitura em 2028, talvez
com o próprio herdeiro à testa do município.
O rapaz merece mais um mandato? Tire as suas impressões.






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