quinta-feira, 2 de abril de 2026

A moça da floresta

 Os castiçais e as travessas

Anunciam o banquete: vinho e faisão

Os convidados se sentam e se divertirão

mas, inquieto, vejo acima das cabeças


Ouço um sussurro na floresta

E sigo um chamado

Sob as luzes, sob as sombras retas

Me vejo capturado


As luzes do luar te banham dum azul

Seria azul? Ou verde como as árvores do sul

Sob teus pés, jazem as folhas

Mortas e vivas, à minha escolha


Uma Dríade perdida dum canto mudo

Me enlaça com os escuros de um olhar

De sombras, de luz, de fogo, num amar

Aos teus pés, me ajoelho, me doo


Como é tua voz? Qual o som do teu riso?

Foi bom sonhar, imaginar, sussurrar

Tocar, na mente, um rosto – indeciso?

No teu olhar, aclama o desejo


E árvores se juntam e dançam

E os convivas se perdem no esquecimento

Num momento de magia, tudo se torna um sentimento

Quando dois se perdem na floresta e, numa música que vem e que vai, dançam.”

Chuvas de uma volta

 "As chuvas

caem trôpegas de pesar

cujo vento vem para assanhar

esses teus cabelos quase ruivos


e o eco das gotas batendo no chão

ressoa no meu coração

castelo de velhas podridões

esperando pelo retorno de uma nova paixão


como o povo sem rumo 

que carrega um vazio trono

almejo teu retorno

grandes festas marcarão

uma doce coroação


deponho a teus pés uma coroa de flores

não te prometo um reino sem dores

mas sim que meus olhares

e um amor sincero

te afagarão os pesares do poder


Como a chuva suave me afogas

e me preenches de ti 

e no suave bater do vento na água

sinto teu doce clamor 

me chamando, me chamando

como a chuva chama pela terra

e ao se encontrarem fundem-se em um só.''


José Luís Barreto

Por trás desse véu

À distância vejo a dançar

Cálida, calada, bem devagar

Num véu castanho a brilhar

Fascinado, venho a me aproximar 


O que há a ser desvelado?

Por trás desses olhos de menina

O que há a ser revelado? 

Esses teus luzeiros fogem à rotina


Escrevo os dias e suporto as noites

E, quando não te vejo, sonho,

com o dançar dos teus véus; no meu delírio

Daria tudo para olhar teus olhos


A filha de um pai, seja ou não de criação

É a mãe doce que acalenta sua cria

Por trás do véu, o mistério sacramental

E em ti vejo as marcas do Alto


Que o véu caia em meus braços, para que tomes meu coração

Que te desvele, toda pura

Pois esta é uma prece dirigida

À filha de um pai de criação.”