domingo, 22 de setembro de 2024

Candidatos de Garanhuns: Sivaldo Albino, o Mágico


Dentre os personagens do teatro eleitoral, o papel de protagonista do pleito de 2024 cabe à atração principal do show: o prefeito Sivaldo Albino. Uma vez abertas as cortinas, todos estão fixos nos seus truques; mas quem é o homem por trás da cartola?

Sivaldo era um típico garanhuense comum até se eleger vereador, há mais de 20 anos. Pesava a seu favor o fato de ser filho de um ex-vereador e de representar uma nascente classe média em Garanhuns. E foi para esse público que ele pautou sua política por mais de uma década. 

Apontado como uma estrela em ascensão, a amizade com o então todo-poderoso prefeito Silvino Duarte lhe garantiu uma posição de destaque no governo de Luiz Carlos, o sucessor de seu padrinho. Foi aí que Sivaldo se tornou presidente da Câmara e conduziu o legislativo nos anos perdidos do governo Luiz Carlos, não tomando qualquer medida para reverter a perda de indústrias ou investimentos importantes dos anos dourados do governo Lula. 

Sem maiores destaques enquanto presidente da Câmara, se lançou candidato a deputado estadual em 2010, sem grandes resultados, e apoiou o retorno do padrinho Silvino em 2012, cujo pleito terminou com uma reviravolta: Silvino desistiu da candidatura para apoiar Izaias Régis, visto que ambos iriam perder para Zé da Luz. Albino seguiu seu padrinho.

Inicialmente aliado de Izaias, Sivaldo terminou se transformando no único vereador de oposição ao citado. Era comum ele surgir, nas rádios, com "denúncias" e as vezes até chorar se dizendo perseguido, alem de se apresentar como o síndico da cidade e homem mais ético em um raio de 200 km. Nessa época, era o vereador mais votado na cidade, graças ao voto da classe média que sempre o apoiou. 


Até 2016, Sivaldo era o típico político conservador saudosista dos anos FHC, indignado com a corrupção do governo petista e organizador das passeatas pró-impeachment de Dilma Rousseff. Isso porque, além de Silvino, seu outro padrinho político era o deputado Raul Jungmann, principal liderança do PPS ao lado do ex-senador Roberto Freire. 

Ocorre que esse grupo do PPS deixou a oposição ao governo estadual do PSB para apoiar o então governador Eduardo Campos, visto que este rompeu com o PT. Assim, Sivaldo se transformou em um membro da "Frente Popular" que combateu desde o início da sua vida política. 

E foi como o único político expressivo da Frente Popular em Garanhuns que, em 2016, os chefes do PSB resolveram escolhê-lo para ser candidato a prefeito contra o bem avaliado Izaias. A escolha se deu às portas da eleição e consistiu em uma aposta: já se sabia que Izaias venceria com facilidade, mas também se identificou um nicho de oposição ao seu governo que, até então, não tinha um candidato. Naquela eleição a chance de vencer não existiria, mas a parte da população que rejeitava Izaias poderia ser a base para, nos pleitos posteriores, dar bons resultados eleitorais em 2018 e, assim, permitir ao PSB e sua Frente Popular retomar o controle de uma prefeitura perdida há vinte anos. 

Sivaldo, então, se reinventou politicamente, esquecendo o passado recente de conservador, e saiu das eleições de 2016 com aproximadamente 16 mil votos, praticamente o dobro do esperado. A derrota sedimentou uma base eleitoral forte o bastante para que o então governador Paulo Câmara o nomeasse para um cargo no governo estadual, além de lhe garantir a indicação dos mais importantes cargos estaduais em Garanhuns. 


(Sivaldo, na época em que tinha menos cabelos)

Sivaldo, ungido com o poder, começou a fazer suas mágicas e, em 2018, quase foi eleito deputado estadual, derrotando facilmente o candidato de Izaias, o forasteiro Álvaro Porto - que devolveu o apoio de Izaias levando o frigorífico e toda a verba que podia para sua cidade, Canhotinho. 

Mesmo sem ser eleito, o governador nomeou um dos deputados do PSB para o secretariado e permitiu a Sivaldo exercer o mandato de deputado.

O neoesquerdista deu um tapa no visual, botou cabelo onde não tinha e chegou a 2020 como candidato oficial a prefeito em nome do governador e do PSB. O partido investiu muito nessa empresa, mas 2020 foi o ano da pandemia e a campanha politica foi muito afetada. Longe de poder fazer o mão-a-mão de sempre, Sivaldo teve que disputar o voto com mais cinco candidatos, sendo os mais expressivos Zaqueu e o padrinho do próprio Sivaldo, Silvino Duarte. 

Silvino foi imposto pelo deputado Fernando Rodolfo, a contragosto do próprio Izaias Régis, que simplesmente fez corpo mole pelo antigo aliado. Já Zaqueu absorveu parte dos apoiadores do governo e, com a situação dividida, o voto do eleitor que rejeitava Izaias e Silvino se concentrou em Sivaldo - que só passou a atacar os antigos aliados na reta final da campanha. 

Com uma penca de votos, Sivaldo chegou ao trono de Garanhuns e, ali, pareceu que os 24 anos de domínio do mesmo grupo político havia chegado ao fim. 

Isso pareceu ser verdade no primeiro decreto da gestão, assim que Albino assumiu a prefeitura: demitiu todos os comissionados, da noite para o dia, ocupando os cargos lentamente ao longo de 2021. Lembro, aliás, de figuras desesperadas por perder um ganha-pão que julgavam ser eterno.

A "varrida", no entanto, causou a paralisia da máquina pública e tornou a prefeitura incapaz de responder aos graves problemas deixados por Izaias, principalmente nas dezenas de obras acabadas, asfalto se abrindo a céu aberto e crise até na coleta de lixo. Para completar, o prefeito resolveu nomear dois irmãos como secretários de governo, além de por primos e parentes por toda a Administração municipal, muitos deles sem qualquer formação ou experiência. 

Foram símbolos do desastre dos dois primeiros anos de governo a tragédia de uma moça que foi sugada por um buraco e a inesquecível cratera da Paulo Guerra, que causou pânico aos moradores da região. Ao passo em que a cidade perigava ser engolida por uma voçoroca, Albino e seus aliados ostentavam em viagens e festas de luxo, exibindo cada vez mais sinais de riqueza pessoal. 


Mesmo que tenha, em seu primeiro ano, tido quase unanimidade na Câmara de vereadores, a popularidade do prefeito andava em baixa, justamente em 2022, ano eleitoral. Havia a expectativa de derrota iminente do PSB e Sivaldo, aí, comete o pior erro da sua vida política: lançou seu próprio filho como candidato oficial a deputado estadual. 

Como não podia deixar de ser, a população viu aquela candidatura como apenas mais um Albino tentando assumir um cargo para nomear parentes e o príncipe Albino não conseguiu êxito, sendo derrotado, na cidade, pelo ex-prefeito Izaias. Viralizou, na época, um áudio do próprio Sivaldo implorando a João Campos, então prefeito do Recife, uns 3 ou 4 mil votos para viabilizar a eleição do príncipe garanhuense. 

No entanto, as eleições de 2022 não foram uma derrota total para Sivaldo, que conseguiu entregar cerca de 10 mil votos a seu deputado federal, o empresário radicado carioca Carreras, que devolveu o apoio com muitas emendas parlamentares do orçamento secreto. 

Com o dinheiro entrando, a Câmara de vereadores sob controle e uma oposição que já acreditava estar com um pé na prefeitura, Sivaldo montou o seu show: o prefeito que deixou a cidade ser engolida pelos buracos se transformou no tocador de obras, entregando praças, prédios, escolas, postos de saúde e até um parque. Com dois toques da varinha de mágico, o prefeito entrou em 2024 como favorito.

No entanto, o prefeito deixou a população a ver navios em muita coisa. O hospital municipal continua como um sonho distante, nada do teleférico, nem dos novos festivais, nem das indústrias, incubadoras de empresas ou apoio às feiras populares. 

Para a nova gestão, Sivaldo prometeu revisar o Plano diretor de Garanhuns (que impede que a cidade cresça verticalmente), além de pavimentar todas as ruas da cidade (ambicioso, não?) e construir um acesso ligando a Liberdade à Cohab II. Na educação, além de ampliar e melhorar o que já existe, Albino pretende conceder a seus súbitos mais 4 creches e escolas em tempo integral, além de propostas revolucionárias como entregar fardamento e kits escolares (e se propõe, é porque isso não acontece hoje, imagino). 

Mas, se as propostas da educação parecem ter saído do chat gpt, as da saúde têm mais lógica. A principal delas é a construção do hospital municipal, de uma central de partos e de um centro farmacêutico, com propostas copiadas de outras cidades serviço de enfeite para o plano de governo (como exemplo, a batida ideia de implantar consultórios de rua ou construir mais UBS - mas onde, quando e com quais critérios, ninguém sabe!).

Na assistência social, a ideia é abrir um novo CREAS, criar um centro do idoso e fazer o feijão com arroz na área. Sobre a população de rua em crescimento, o perigo dos dependentes e a assistência à população pobre, nem uma palavra, em que pese Sivaldo prometa construir um abrigo para crianças abandonadas e uma "república" para jovens de 18 e 21 anos (e o restante?). Destaco a promessa de criar um restaurante popular (também copiado do PSB recifense) e a criação de uma casa de apoio em Recife (o que já existe!).

As propostas sobre desenvolvimento, no entanto, são curiosas: ali consta a velha lorota de incentivo ao primeiro emprego, reabertura da escola técnica municipal e microcredito para o empreendedor (uma proposta copiada do plano de governo de João Campos, lá de 2020). Também se propôs criar um banco comunitário e uma moeda de mentirinha ("Garoa". Consegue acreditar?), além de criar uma agência do emprego (um serviço inútil, visto já existir um órgão estadual para isso) e reestruturar os espaços do comércio popular (Pop Shop, mercado 18 de agosto e a CEAGA). Aliás, porque reestruturar a CEAGA, que acabou de ser reformada? 

Sobre o turismo, se propôs um monte de programas sem sentido, além de implantar um pavilhão de feiras e eventos, instalar o tão famoso teleférico e criar a festa dos quilombos. O resto são só boas intenções. Nenhuma palavra sobre transformar Garanhuns na terra dos festivais, nem de fomentar indústrias e produtores locais para produzir bens de consumo nos principais eventos do município. 

Sobre a cultura, a principal proposta é manter o FIG sob organização da prefeitura, além de criar dois museus, uma escola de arte e uma casa da cultura. 

Por fim, as propostas para a para a área rural, se propôs o básico (como cuidar das estradas vicinais) e as velhas promessas de banco de sementes e apoio ao agricultor de acordo com o que ele planta e recuperar culturas de plantio já perdidas, como o café. No meio de tudo, se falou em padronizar ambulantes e as feiras livres (o que não deu muito certo na gestão Izaias). 

O que podemos concluir das propostas de Sivaldo? A maioria veio diretamente do Chat GPT e do plano de governo de João Campos de 2020. Outras claramente foram copiadas do plano de governo do próprio Sivaldo em 2020 e, por sua vez, outras ignoram a realidade (como criar algo que já existe ou reformar uma CEAGA que acabou de ser reformada). 

Desnecessário dizer, mas com a grande maioria dos candidatos a vereador o apoiando e toda a máquinha dos comissionados da prefeitura, além do reforço do orçamento secreto, a família real ficará mais 4 anos no governo.

Em suma, Sivaldo está há poucos dias de conseguir um segundo mandato, mas duvido que fará o sucessor. Isso porque uma das fontes de receitas para as muitas obras que conduz veio de dívidas contraídas com vários bancos. O cheque não será tão gordo assim ao longo do segundo mandato. 

Enfim, Sivaldo Albino está acostumado a fazer mágicas e a se reinventar. Deixou de ser um assalariado para ser vereador, presidente da Câmara e candidato mais votado; ficou careca e, depois, cabeludo; era conservador de direita do tipo que usava camisa da CBF e tudo e, hoje, não só faz o L como traz propostas para populações oprimidas; vivia criticando todo mundo em nome da ética e dos bons costumes e, no poder, cometeu mais atos de nepotismo que os coronéis de antigamente. Demorou um ano para tapar dois buracos, mas entregou um parque em quatro meses e, de promessa jovem da política e esperança da classe média, se transformou em um caudilho familiar das antigas. 

Entre a mágica e a pura farsa, Albino vai fazendo seu feitiço que, na verdade, é só a continuação da histórica política dos últimos 30 anos de Garanhuns: prefeitos fracos garantem mais 4 anos com muito apoio espontâneo da Câmara e obras de sal e nunca mais têm relevância após os 8 anos, sendo processados e tendo os bens congelados depois. 

Se Sivaldo terminará assim, é uma aposta, e é uma pena que o futuro de 140 mil garanhunenses esteja diretamente nessa nesse bolão!

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

O (o)caso do Hospital Municipal de Garanhuns


Acompanhando essas eleições (nada emocionantes) em Garanhuns, vemos que alguns temas merecem destaque. É que a saúde do garanhuense vem sendo tratada com sangrias e emplastos por tempo demais!

Dito isto, volta e meia, reabrir o hospital municipal é o prato principal das promessas dos candidatos a prefeito - menos um, como veremos. 

Nessas eleições, dois dos três candidatos prometeram reabrir a instituição. Em 2020, todos os candidatos fizeram a mesma promessa. Mas, antes de analisarmos se os planos dos atuais candidatos possuem algum sentido, que tal uma rápida viagem no tempo e perguntarmos: quem tirou o hospital de Garanhuns?

O Google e as lendas urbanas não nos deixam mentir: lá em 2013, o então novo prefeito de Garanhuns, o sr. Izaias, comunicou à imprensa que o hospital estava sendo "interditado" por conta dos altos custos. Segundo disse o todo-poderoso de plantão, "um parto custava 300 mil". Logo, ficou claro que a "interdição" era puro fechamento, com médicos e profissionais sendo demitidos ou realocados e a cidade perdendo sua urgência municipal. Todos os atendimentos foram transferidos para o Hospifal infantil, que, na época, não possuía urgência, mas apenas ambulatório e enfermaria. 

Ao lado de Izaias, estavam Gersinho Filho (vereador, líder da maioria, futuro presidente da Câmara e secretário municipal do mesmo Izaias) e Sivaldo Albino, também aliado do prefeito. Nenhum deles disse um aí quando o pessoal da secretaria de saúde trancou os portões do hospital - e até hoje vemos suas ruínas.

Ou seja, a única emergência pública para uma cidade de 140 mil habitantes passou a ser apenas a do Hospital Dom Moura. E o resto da história o cemitério conhece bem.

Mas, se o objetivo era economizar (não nos caixões, claro), será que essa medida radical - fechar o hospital - deu realmente frutos? 

Quanto à qualidade dos serviços de saúde municipal, precisamos de um rápido salto no tempo para responder: basta lembrarmos que, durante a pandemia de 2020, a cidade estava totalmente despreparada. Muita gente morreu ou teve que se amontoar no Dom Moura antes que o município conseguisse equipar uma urgência municipal para tratar pacientes com covid. 

Sobre a suposta economia com o fechamento do hospital, os números não mentem, certo?

Em 2013, o gasto com saúde municipal era de aproximadamente 43 milhões.:


No ano seguinte, saltaram para 63 milhões, ficando congelados em 2015, ano no qual, apenas com assistência hospitalar e ambulatórial (o que inclui os repasses para o Hospifal infantil) a prefeitura gastou cerca de 26 milhões de reais. 


Acima, os gastos com saúde em Garanhuns - 2014


Acima, os gastos com saúde em Garanhuns (2015).

Ou seja, não apenas o gasto aumentou, mesmo com a diminuição da prestação de assistencia médica, como os serviços hospitalares aumentaram dramaticamente de custo. Em todos os níveis, a decisão foi uma tragédia para a cidade e, diga-se de passagem, quase um crime contra a população, além de um péssimo negócio para o bolso do povo. 

O desastre - além do fato de municípios muito menores terem hospitais municipais - faz os olhos de prefeituraveis brilharem desde 2016. O atual prefeito, inclusive, elegeu-se com a promessa de reabrir o hospital; apesar de ter recebido mais de R$ 100 milhões do chamado orçamento secreto através do seu deputado federal, não moveu uma palha pelo projeto, deixando para assinar a ordem de serviço para construir o hospital em pleno período eleitoral atual, cumprindo uma nova promessa que consta em seu programa de governo atual.

Planeja Sivaldo Albino gastar uma verdadeira nota preta para reabrir o hospital, que vai ser construído do zero, bem ao estilo faraônico do prefeito e da família real que lhe serve de corte. Ao invés de aproveitar o prédio antigo, o plano é construir uma superestrutura nas margens da BR, o que deve levar, no mínimo, uns 4 ou até 8 anos. 

E o que dizem os demais candidatos?

O sr. Gersinho Filho levou ao limite a tradicional promessa de políticos garanhuenses de construir hospitais: prometeu não um, mas três deles (um hospital geral, o da criança e até um veterinário). Se nem com 100 milhões de orçamento secreto e outros 100 milhões que a caixa emprestou Garanhuns conseguiu construir um hospital simples, imagine três deles!

Na ponta oposta, o sr. Izaias Régis, o prefeito que fechou o hospital municipal, não dá o braço a torcer e simplesmente deixa claro que reabrir o hospital não está em seus planos, mas apenas construir novas UBS em áreas carentes e modernizar as atuais, como se ele tivesse feito muito disso quando teve a chance.

Dentre a promessa não cumprida, as promessas impossíveis e a simples negação da promessa, temos uma realidade: Garanhuns precisa de um hospital municipal mais do que nunca. Não ter uma unidade municipal de atendimento de urgência e um centro de diagnósticos não é apenas uma vergonha, mas abastece o cemitério e faz a alegria das funerárias de forma completamente evitável. Me pergunto qual cidade de 140 mil habitantes não possui unidade hospitalar municipal... 

Assim, em que pese sempre apareça nas promessas, o hospital municipal, tal qual uma máquina cara, foi quebrado e destruído pelo sr. Izaias e nenhum dos dois candidatos restantes têm planos concretos para seu restabelecimento. 

Nenhum dos candidatos propôs o básico: reformar o prédio do antigo hospital e construir um anexo com uma central de diagnósticos, ligada a todos os PSFs e UBS da cidade, mediante uma coisinha que todo plano de saúde safado utiliza: prontuário eletrônico. Ou seja, trata-se da possibilidade de o cidadão marcar consultas e solicitar exames sem sair de casa, com controle de prazos e de qualidade, e dispondo de uma urgência pública municipal de média e baixa complexidade - afinal, acionar o Hospital Regional para tirar um furúnculo ou um apêndice sobrecarrega o sistema e impede a unidade de tratar casos mais graves. 

Ah, e uma coisa básica: a cidade precisa não só de um hospital municipal, mas de uma UPA 24h, que foi construída e abandonada pelo ex-prefeito Régis e continua fechada pela atual gestão da família real. 

Enquanto isso, a população fica a ver navios - ou amontada no Dom Moura, enquanto seus políticos se tratam nos hospitais privados da cidade; inclusive aquele ex-prefeito que fechou o hospital e seus dois ex-aliados. Enquanto as mentiras e omissões perduram, o hospital que nunca volta é mais uma das lendas urbanas da política garanhuense, onde a única política municipal para a saúde parece ter a ver com um pacto de enriquecimento de coveiros e funerárias.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

As eleições de 2024 em Garanhuns: O Mágico de Oz


Reassisti ao clássico "O Mágico de Oz" recentemente. Ver toda aquela fantasia, que hoje me parece enfadonha, assim como a previsibilidade da história, me fez pensar: será que a Cidade das Esmeraldas é tão distante assim da triste Garanhuns?

Não que a Cidade das Flores não tenha seus leões covardes, homens de lata sem coração ou espantalhos sem cérebro, mas o marasmo de "já ter visto essa história várias vezes" domina quem se propõe a analisar as eleições municipais de 2024.

Por isso, começo aqui pela conclusão: o atual prefeito, Sivaldo Albino, será reeleito. Seus truques de mágico barato surtiram efeito, e os números cabalísticos das pesquisas confirmam sua vitória, mantendo a longa tradição iniciada pelo aliado Silvino Duarte.

Isso se dá pela baixa rejeição ao prefeito, pela ausência de fatos políticos explorados pela oposição e, principalmente, pelo erro da própria oposição em disputar o pleito dividida em duas candidaturas, repetindo o equívoco do ex-prefeito Izaias em 2020, que permitiu a dois aliados disputarem sua sucessão. Com a situação dividida, o atual prefeito unificou a rejeição ao candidato Silvino e saiu vencedor.

A segunda observação — e que chamou a atenção de todos — foi a baixa quantidade de candidatos, inclusive a vereadores. Isso ocorreu por causa da lei eleitoral, que reduziu o número máximo de candidatos a vereador por partido, burocratizou as campanhas e diminuiu a propaganda eleitoral, com o objetivo de reduzir a fragmentação partidária através da imposição de barreiras. 

No entanto, parece-me que restringir tanto os candidatos e partidos acaba centralizando o poder de apresentar candidaturas nas mãos dos dirigentes partidários e dos endinheirados que podem financiar uma campanha. Em Garanhuns, cidade tipicamente governada por uma pequena elite, isso resultou exatamente em poucas candidatura$ a prefeito. Nesse cenário, dispondo de mais fundo partidário, cargos e poder, foi fácil para o prefeito arregimentar as principais lideranças do município e bater recorde de candidatos a vereador, batendo quase 80 dos 150 candidatos deste ano.

Para o povo, restou a tarefa desagradável de escolher entre três ex-aliados, sendo dois deles, como ensinou a atual governadora, capazes de muito bem se reconciliarem na "pizza de domingo" da família.

Por fim, outra coisa que faz as eleições em Garanhuns parecerem um capítulo perdido de "O Mágico de Oz" é a fantasia entediante na qual o garanhuense vive.

Ora, sabemos que o atual prefeito vencerá, mas por quê? A varinha mágica das obras de ocasião trabalhou bem, vitaminada pelas verbas do orçamento secreto (R$ 100 milhões, como disse o próprio gestor), fazendo o povo engolir a péssima prestação dos serviços de saúde, limpeza urbana, iluminação e manutenção das vias públicas. É como um pacto com uma força maligna, cuja celebração se deu no profano Festival de Inverno deste ano e no Natal Luz (que já nem sei mais qual o nome da ocasião).

Mesmo com o domínio total do mágico gestor, as bruxas do subdesenvolvimento, desemprego, crise na saúde e falência da zona rural ainda rondam a cidade. Só no ano passado, Garanhuns perdeu 1.219 empregos, batendo o recorde de desempregados em um único mês: 1.718 vagas a menos, justamente em dezembro, o mês áureo do Natal Luz. Sobre a qualidade dos PSFs e o abandono do campo, não há o que comentar.

E os críticos, o que fizeram? Iludiram-se com as eleições de 2022, em que o deputado Izaias venceu o prefeito e a família real, mas a falta de influência no governo estadual (que maltrata bastante Garanhuns) selou a derrota da oposição.

Esse é o cenário deste ano: as mágicas do vil metal garantirão mais quatro anos de reinado da família real, mesmo com as bruxas à solta. Parece a história de sempre, com os personagens de sempre, morosa e previsível, mas com um final diferente: aqui, a mocinha ingênua não vence as bruxas nem desmascara o mágico impostor, mas prefere deixar tudo exatamente como está.

Não haverá fada madrinha ou príncipe encantado para salvar Garanhuns. Aqui, o mal vencerá pelo 32º ano seguido, fazendo da terra de Simoa uma cidade das Esmeraldas: perfeita apenas nas ilusões fabricadas por um mágico de araque. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

As eleições em Garanhuns: terá fim a noite de 24 anos?

 Sob as nuvens da pior pandemia do século, candidatos e candidatas começaram, depois de dois anos, a percorrer as ruas da saudosa Garanhuns. Brigando ombro a ombro pela dignidade de comandar a 9ª maior cidade de Pernambuco, três pretendentes se apresentam com mais força - e refletem muito do desânimo que assola a política nacional como um todo.

Afinal, os quase 150 mil mortos brasileiros - e, destes, pelo menos 80 só em Garanhuns - juntamente à crise econômica não deixam muito ânimo para que os cidadãos pensem em política. Todas as campanhas estão mirradas, num efeito nacional. Pouco se fala, nos noticiários e nas ruas, sobre os candidatos.

Mas, não fosse este o clima nacional, bem o poderia ser em Garanhuns. Ora, dentre os pretendentes melhor posicionados na corrida para a prefeitura, nenhum nome é novo ou desperta muito entusiasmo; na verdade, é uma eleição muito ditada pela velha política.

E não se trata de um trocadilho a um candidato específico. Trocando em miúdos, há 24 (vinte e quatro) anos a cidade está sob domínio de um mesmo grupo político e está prestes a iniciar um novo ciclo em sua história. Essa situação gera cansaço e despolitização.

Mas, em que pese tal desânimo, nunca foi tão importante pensar bem em quem deve governar Garanhuns. A maior crise econômica em 100 (cem) anos está às nossas portas e nunca antes na história as prefeituras serão tão necessárias para reparar, atenuar ou combater as inevitáveis mazelas sociais que surgiram, surgem e surgirão por conta da crise que o país atravessa. 

É por isso que começamos com os problemas. Garanhuns, há muito, sofre com desemprego alto, sendo que as vagas que existem não exigem muita qualificação profissional - o que gera salários baixos e pobreza, com grande parte da força de trabalhos sobrevivendo informalmente, através de "bicos''. A economia local é pouco diversificada, dependente ao extremo do comércio e dos serviços, bem como do mercado consumidor das cidades vizinhas.

 O maior problema social, fora o desemprego e a inércia econômica, com certeza é o acesso à saúde: a cidade é a única de seu porte (e a única do Agreste, ao lado de Jurema) que não possui Hospital Municipal (fechado pela atual gestão) e nem fornece a seus cidadãos algum centro de diagnósticos; os postos de saúde não tem médicos ou remédios, o que gera uma super demanda ao Hospital Estadual Dom Moura muito conhecida para funcionários e pacientes; sequer possui uma casa de passagem e acolhida para os garanhuenses que precisam se deslocar à capital. Vários postos de saúde abandonados, em que pese construídos pela atual gestão, criam mato, se deterioram e são utilizados para acobertar crimes. E que nem se fale na UPA: esta, uma vez pronta, foi, tal como os postos de saúde, literalmente abandonada e, às pressas, reativada na pandemia, numa "reforma'' (quem já viu reformar o que acabou de ser construído?) polêmica e que pouco agregou à cidade.

Outro problema jamais atacado nessas quase três décadas é o declínio irreparável da zona rural. A começar por um redimensionamento da área do município efetuado pelo IBGE (que tirou de Garanhuns muitas terras rurais e as passou para Caetés e Paranatama), os agricultores e produtores enfrentaram quase uma década de seca (2011-2017) sem apoio algum da Prefeitura. A produção de leite é praticamente a mesma que há dez anos, e até menor; as culturas de feijão, macaxeira e milho, vitais para alimentação do povo nas feiras populares, estão decaindo há cerca de cinco anos. Os feirantes não tem apoio do governo municipal, que, quando agiu, o fez para prejudicar os produtores, como quando impôs uma empresa para organizar as feiras populares da cidade, voltando atrás diante dos altos custos a serem suportados pelos feirantes e denúncias de maracutaias envolvendo a dita empresa - que, sediada em Caruaru, se provou ser uma "empresa-fantasma''. Até mesmo a CEAGA - a central de abastecimento da cidade - está há anos em reforma e não foi entregue, gerando prejuízos incalculáveis para feirantes e populares.



Na educação, Garanhuns possui um avançado polo de ensino superior pouco inserido na economia local, ao contrário de outras cidades, que tem programas de estágios e estímulos para os estudantes ficarem e produzirem na cidade após concluídos os estudos, nela empregando o que aprenderam em instituições renomadas como a UPE e a Universidade Federal do Agreste. A escola técnica municipal foi fechada, aliás, e as mães e pais que trabalham não tem creches para deixarem os filhos - até foram construídas, mas hoje juntam mato e servem de ponto de distribuição de drogas. Outras escolas, como a Padre Agobar Valença, nunca terminaram suas obras. 

Todos esses problemas, por incrível que se pareça, foram reconhecidos pelos principais candidatos a prefeito em seus planos de governo. Todos disseram que irão reabrir o Hospital Municipal, construir mais postos de saúde, inserir as universidades na economia local, atrair investimentos privados através de estímulos fiscais, inaugurar creches e "dar apoio'' ao agricultor. Desnecessário dizer que, também, consentem em expandir a programação turística da cidade, seja transformando Garanhuns na "terra dos festivais'', dando 30 dias ao Festival de Inverno ou ressuscitando o Festival de Jazz - este, perdido para Gravatá na última gestão. 

As propostas, assim, são boas e partem de um diagnóstico parcialmente correto do que a cidade precisa. Mas aí, entra a realidade: vocês acham mesmo que a cidade, que, segundo o atual gestor, estaria "quebrada'', tem mesmo condições de levar a cabo tantas e tão custosas obras e ações?

Veja-se que um dos candidatos, aquele que diz ser doutor, quer dar uma bolsa para jovens estudantes terem "o primeiro emprego'' nas empresas da cidade, copiando o programa Jovem Aprendiz às custas do erário. Aí eu me pergunto: onde um jovem agrônomo irá trabalhar em Garanhuns? De onde vai sair o dinheiro para pagar, digamos, 200 bolsas de cerca de R$ 1.000,00 (um valor médio de uma bolsa de estágio) no atual cenário de penúria?

Ora, se trata, evidentemente, daquele tipo de proposta destinada a jamais ver a luz do dia. Outra, pouco desenhada na prática, e repetida por todos os candidatos, é "dar estímulos fiscais'' para que as empresas se fixem em Garanhuns. Meus amigos, como a cidade pode se dar ao luxo de perder receita - porque dar estímulo fiscal é exatamente isso: diminuir os impostos e contribuições para que determinado setor da economia se instale - na atual situação, quando ela gasta mais que arrecada, junto com o resto do país?


Tem candidato até mesmo prometendo aumentar o número de cursos da AESGA, também sem dizer de onde vai sair a grana. Outro, aquele mesmo que diz ser doutor, quer terminar as obras do atual governo, de quem é continuador. Se não conseguiram terminar as obras quando a cidade nadava em dinheiro, como irão terminar agora, quando a fonte secou?

A pior desfaçatez fica mesmo com as propostas para o setor rural. Ajeitar estradas e distribuir sementes é tudo o que dois dos candidatos propõem, aliado à coisas genéricas e sem sentido. Apenas um propõe levar os estudantes da Universidade Rural ao campo e criar um programa de estímulo à agricultura familiar com base em estudos científicos e fortalecendo a auto organização dos produtores, incentivando as cooperativas; aliás, uma proposta de baixo custo para o erário público, mas de enorme repercussão econômica. 

As demais propostas nem merecem comentários. O custo milionário para construir um Hospital Municipal, Postos de saúde e creches simplesmente são, hoje, irrealizáveis: Garanhuns é, como a maioria das cidades nordestinas, uma terra falida, que depende da boa vontade do Governo Federal, gastando mais do que arrecada. 

Então, meus amigos, não adianta distribuir bolos com recheio de ar. Apesar de partirem de uma boa leitura das necessidades de Garanhuns, os candidatos rivalizam em populismo; cada um com um plano de governo mais inexequível que o outro. 

Mas o que mais chama a atenção em tudo isso é que o próprio candidato do prefeito é o que tem, talvez, o programa de governo mais extenso. Aliás, o Plano de governo do "doutor Silvino'' é quase uma negação do que foi o governo Izaías Régis: promete reabrir o Hospital que o padrinho fechou, jura terminar os postos de saúde que ele nunca inaugurou, diz que vai estimular empregos e dar a tal bolsa aos jovens que o governo Régis (podendo fazê-lo) jamais o fez, bate na mesa que vai dar estímulos para as empresas virem para Garanhuns (coisa que a gestão atual deixou para lá) e até mesmo se prontifica a trazer de volta o Programa "Prefeitura presente'', da gestão Luiz Carlos, onde a prefeitura fazia ações sociais nas periferias, distribuía cestas básicas, realizava mutirões e estimulava atividades culturais, como levar crianças pobres ao cinema e ao teatro. 

A conclusão maior é de que o plano de governo e as promessas do tal doutor são quase uma confissão de culpa pelo que ele mesmo, quando foi prefeito (1996-2004), seu sucessor indicado Luiz Carlos (2004-2012) e seu aliado de sempre e hoje padrinho eleitoral Izaías Régis (2012-2020) simplesmente não fizeram: assegurar uma Saúde digna aos garanhuenses, ao menos na realização de consultas e exames eletivos e, principalmente, oportunidades de emprego e desenvolvimento econômico.

Dessa forma, é muito difícil que, depois de 24 anos, os mesmos sujeitos de sempre cumpram o que prometeram. E tudo isso pode ser dito sem se olhar para o vasto histórico criminal do candidato do PTB (Silvino, o doutor), que se livrou de várias denúncias e processos pelo fato de ter mais de 70 anos (aos amigos leigos nas letras jurídicas, ao se atingir tal idade, os prazos para que um sujeito seja processado por crimes cai pela metade. Como a maioria dos processos de Silvino era antiga, quase todos prescreveram, sendo arquivados sem jamais se apurar a culpa dele, embora o Tribunal de Contas do Estado tenha rejeitado duas prestações de contas suas - 2003 e 2004 - e o mantido inelegível por anos). 

Silvino Duarte, o nome que sempre utilizou nas urnas (e talvez o "doutor'' Silvino seja para iludir a população de que se trata de outro Silvino que não aquele que sumiu em 2004), não é apenas o candidato do atraso: é o candidato da conformidade. Com ele, aqueles que buscam de forma desesperada dilatar o hoje, sufocando o amanhã, tentam uma última chance de manter suas benesses e vantagens sem entender que um dia não pode durar 24 anos. 

Isso porque a vitória de Silvino, dando continuidade à atual forma de governar a cidade (calçar ruas em época de campanha, enfeitar a cidade com piscas-piscas, patrocinar farras para o povo e manter uma extensa camarilha de funcionários/militantes comissionados), no atual cenário de crise do país será a morte definitiva da cidade. Ou Garanhuns se reinventa e aposta no desenvolvimento, na atração de indústrias e grandes produtores para se instalarem no município e utiliza a economia potencial criativa oriunda dos centros educacionais aí sediados, ou será engolida por uma crise econômica terrível que levará décadas para ser superada. O povo tem alguma noção disso e daí existir mais intenção de votos aos adversários de Silvino do que ao bom doutor.

Silvino, assim, é o mais rejeitado dos candidatos e, na soma dos adversários, perde nas pesquisas. Isso mostra que, na reta final, os eleitores que não o querem de jeito nenhum vão migrar para o oposicionista mais forte e garantir sua vitória - assim espero. 

Se o amanhã vai chegar ou o triste dia em que a era Silvino começou em Garanhuns vai se perpetuar por mais 4 anos, só o bom senso da população irá dizer. É por isso que este post começa com a imagem que representa muito bem a Garanhuns do último quarto de século: a placa desbotada do Shopping jamais construído, a representação de que, na Terra de Simoa, o desenvolvimento nunca passou de promessa eleitoral. 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O Orçamento impositivo é uma farsa: ou de como um TCC pode prever o futuro!


Corria o ano de 2015 – o início da crise política, econômica e social que vivemos até hoje. Então concluindo o curso de direito, sob orientação do mestre Cláudio César de Andrade, e diante das opções de elaborar uma monografia sobre temas batidos, resolvi investigar algo realmente relevante.
Naquela época, o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, mantinha uma guerra aberta com a presidente Dilma Rousseff. Uma de suas principais munições contra a titular do Executivo foi tornar as emendas parlamentares ao orçamento “impositivas’’ – para quem não se recorda, o orçamento público federal, ao ser enviado pelo presidente da República ao Congresso para ser debatido e aprovado, pode ser alterado pelos parlamentes. Suas excelências sempre dispuseram de alguns nacos milionários para destinar a seus redutos eleitorais. Acontece que apenas o presidente da República liberava, se e quando desejasse, esses valores. Isso muitas vezes acontecia após o parlamentar votar de acordo com os interesses presidenciais.
O que era ruim se tornou ainda pior. A partir das mudanças patrocinadas pelo ilustre deputado Cunha, o presidente se veria obrigado a executar – a gastar, em suma – o valor que os parlamentares desejassem. Esse valor se limitava a 1,2% da receita líquida do governo, na época coisa de 10 bilhões de reais. Cada parlamentar poderia dispor de algumas dezenas de milhões para fazer o que desejar.
Nas conclusões da minha monografia, sustentei, além da evidente inconstitucionalidade de tal alteração constitucional, que os parlamentares não tinham qualificação técnica nem elaborariam estudos sobre a melhor forma de aplicar o dinheiro de tais emendas. Basicamente, o dinheiro serviria para a promoção pessoal, populista e eleitoreira dos próprios deputados e senadores, acarretando grande risco de desperdício de recursos públicos:

“É de se considerar que, no momento em que as emendas de despesa passam a ter execução obrigatória, os parlamentares passam a agir como administradores de recursos públicos, sendo os formulares até mesmo de programas de governo e obras públicas nas suas regiões de interesse eleitoral. A grande problemática desse fato é que não há uma garantia sólida de como a decisão política tomada pelo parlamentar, no momento em que destina uma emenda de despesa a seu município ou Estado de origem, é tomada: ora, qual o critério para se destinar a emenda para o ministério da saúde e não para o da educação? Por que se devia construir um posto de saúde no bairro A e não no município B, ainda mais carente? O real beneficiado pela execução da emenda parlamentar é mesmo o cidadão? O interesse público é atendido? Todas essas deficiências põem em cheque a capacidade dos parlamentares de 1) identificar, com precisão, quais as necessidades coletivas que devem ser satisfeitas pelo Estado; 2) formular, com base em tal seleção, uma política pública eficaz para guiar a formulação da despesa pública; 3) estruturar e planejar o gasto público, com base em estudos técnicos, de forma a atender à necessidade escolhida.’’ (GUIMARÃES, Jorge. “O Orçamento impositivo’’: Um novo capítulo na crise da Separação dos três poderes à luz da Emenda Constitucional nº 86/2015)

Por tais motivos, não foi surpreendente ler hoje que “TCU aponta baixa eficácia na aplicação de emendas parlamentares’’(in: https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/politica/2019/12/714830-tcu-aponta-baixa-eficacia-na-aplicacao-de-emendas-parlamentares.html) , especialmente o seguinte:

“Recursos destinados por deputados e senadores para financiar obras e programas nas suas bases eleitorais não contribuem para melhorar a vida das pessoas. Na hora em que se decide para onde parte das emendas parlamentares deve ser enviada, necessidades reais da população são ignoradas. Estas são algumas das conclusões de uma auditoria em emendas feitas entre 2014 e 2017 que o Tribunal de Contas da União (TCU) acaba de concluir.
Todos os anos, parlamentares podem decidir onde o governo deve colocar parte dos recursos públicos. Ao todo, cada um tem o direito de apresentar até 25 emendas individuais. O valor muda ano a ano. Em 2020, serão R$ 15,9 milhões por parlamentar, o que significa que o destino de R$ 9,5 bilhões será decidido pelos 513 deputados e 81 senadores do Congresso.’’

A coisa ficou pior do que o previsto. Deputados e senadores destinaram recursos públicos para obras fraudulentas; shows e festividades milionárias; compras viciadas e desnecessárias. Se tornou comum as notícias, em blogs e sites de notícias regionais e locais, que o “deputado fulano destina n milhões para a saúde de tal lugar’’.
Foram exatamente tais situações que me levaram a considerar a EC 86/2015, que criou a nefasta figura do orçamento impositivo parlamentar, não apenas inconstitucional, mas um sintoma de crise política e, ela própria, uma perversão da democracia:

“Diante da prevalência das emendas parlamentares como instrumento de poder tanto nas mãos do presidencialismo forte quanto numa crescente oligarquização dos partidos políticos presentes no interior do Congresso Nacional, acrescido da baixa representatividade das forças políticas no interior do Legislativo, não se vê necessidade técnico-jurídica para a manutenção das emendas parlamentares ao Orçamento. Estas, na verdade, constituem unicamente um mecanismo de barganha política e fermento do personalismo político, transformando o legislador em gestor público, algo que, a rigor, contraria a própria função de legislar e invade o campo de atuação do Executivo.
O orçamento impositivo das emendas parlamentares, assim, vem com ideia oposta a que se propagandeia. Confere independência não ao poder Legislativo, mas aos próprios parlamentares para continuar a dispor de recursos públicos segundo seus interesses; confunde legislador e gestor numa figura híbrida que não deixa de confessar sua parentela com antigas práticas oligárquicas ainda reinantes no cenário político nacional; e, por pior, impede que recursos públicos essenciais sejam alocados para onde realmente devem, visto ser o parlamentar um ente quase descolado de seus representados devido às vicissitudes do sistema eleitoral vigente.’’

É triste notar como a realidade deixou tais previsões mais amargas. As emendas ao orçamento se tornaram um instrumento de oligarquização e “coronelização’’ da política brasileira que, além de tudo, transformou o modelo da Separação de Poderes de um sistema ocasionalmente em crise para um sistema permanentemente em crise. O desperdício de recursos públicos em plena grave crise econômica e fiscal, em um cenário onde a população hostiliza e não reconhece seus próprios representantes legais, denuncia não apenas o modelo de competências do Estado nacional afundou, mas, sobretudo, faliu.
Essa constatação parte da visão de que o Estado brasileiro se tornou desfuncional por completo. Em resumo: legislador governa; presidente não governa e legisla; Judiciário legisla e governa... e assim o projeto iluminista encontrou seu fim em terra brasilis. 


terça-feira, 25 de setembro de 2018

O CORONEL CONTRA O LOBISOMEM: CIRO GOMES E O DRAGÃO DA MALDADE


Definir um voto vem sendo cada vez mais difícil. Mas, diante de tudo o que estamos passando hoje, vou me socorrer na história, a quem atribuo algum sentido: nos últimos 30 anos, reconquistamos nossa redemocratização, vivemos a estabilização econômica, festejamos a redução da pobreza e, por fim, caímos em um precipício onde todas essas conquistas estão ameaçadas. É o momento em que ou passamos para a fase de desenvolvimento seguinte ou vamos ter que iniciar tudo de novo, se é que me entendem.

Por isso, é fundamental o voto em alguém (ou em um “projeto’’) que se comprometa a conservar tudo o que foi realizado. Isso exclui o apoio a quaisquer aventuras antidemocráticas que, sob uma falsa promessa do retorno de uma época onde o “parecer’’ ser honesto, limpo e organizado era mais importante do sê-los de fato, atiçam o que há de pior na alma humana, como o velho desejo de que poucos devem comandar muitos e, o que é pior, de que algumas categorias de seres humanos são naturalmente “degenerados’’, verdadeiros cidadãos de segunda classe; por isso, merecem ganhar menos dinheiro, merecem sofrer com a pobreza da qual não são culpados, merecem ser surrados por sua orientação sexual, merecem a mordaça cultural, social e existencial. 

Tal discurso, apesar de usar a máscara da disputa eleitoral, já declaradamente proclamou a possibilidade de destruir a democracia e pôs em cheque o processo eleitoral – mas somente se perder nas urnas. É a fera que chega à meia-noite, meio homem, meio besta. 

Esse mesmo projeto autoritário busca aumentar os impostos sobre os mais pobres e a classe média, aliviando os mais ricos, onde a taxa de poupança é maior, acabando com o motor do crescimento nacional, que é o consumo das famílias; tenta realizar uma abertura indiscriminada da nossa economia, por puro fanatismo ideológico; almeja, por uma mistificação de uma suposta superioridade do setor privado sobre o público, privatizar o patrimônio nacional com uma voracidade que deixaria o príncipe das privatarias tucanas corado de vergonha – e aqueles que andam, há décadas, de olho nas riquezas do Brasil, finalmente satisfeitos.

Trata-se do projeto que, além de assumir seu compromisso com a concentração de renda e a desigualdade social, arrisca destruir, em poucos meses, quase que a totalidade da estrutura produtiva brasileira – ou alguém acha que o agronegócio brasileiro, que incrivelmente apoia essa proposta suicida, vai resistir quantos meses contra o agronegócio subsidiado norte-americano, se perder os subsídios que o governo brasileiro lhe concede?

Por isso, meu voto é destinado ao único candidato que tem o compromisso de preservar o estado de direito e, ao mesmo tempo, combater a loucura do elitismo econômico no Brasil. Tudo isso realizando um necessário ajuste nas finanças do país, detendo a escalada da dívida pública mudando a natureza da mesma para títulos com maior prazo de resgate e menores juros; isso se fará aumentando receitas, tributando quem nunca foi tributado no Brasil (lucros e dividendos das grandes empresas, e heranças multimilionárias, hoje subtaxadas) e reduzindo desonerações tributárias insanas, que custam mais de R$ 300 bilhões ao ano, permitindo espaço para revogar a insana “emenda’’ que congela os gatos públicos por 20 anos. Com isso, temos nossa “normalidade’’ fiscal de volta. E assim será possível os “capitalistas’’ voltarem a ver algum futuro no Brasil.

E país que acena ter um bom futuro é país onde as taxas de emprego e consumo sobem. Não é a toa que uma puxa a outra, e não é insanidade alguma lançar um programa que permita a 63 milhões de endividados voltarem a serem inseridos na roda da economia, consumindo como antes, gerando demanda e emprego, restaurando o patamar produtivo pré-crise, só que dessa vez beneficiado por uma desregulamentação maior do setor bancário, permitindo que as cooperativas de crédito possam competir com os grandes bancos para oferecer o crédito necessário ao crescimento do país. Um programa emergencial de empregos, reativando pequenas obras públicas, ajuda a dar o gatilho.

Nada disso é possível sem um governo que tenha algum planejamento econômico.

Nenhum país dos nossos tempos deixa de influenciar em setores estratégicos para a economia nacional, e não seremos nós a sermos os diferentes: a riqueza em petróleo, o potencial na área de defesa, o antigo título de maior produtor de biocombustíveis do mundo e a necessidade de redução da dependência do setor fármaco-médico são de atuação vital para a sobrevivência do país.

Tudo isso possibilita uma necessária reforma tributária, finalmente instituindo o IVA (imposto sobre valor agregado), substituindo quase uma dezena de outros impostos e reduzindo a burocracia, consequentemente, aumenta a arrecadação da Previdência e, assim, possibilita uma reforma do atual e insustentável modelo para o regime de capitalização misto para os futuros segurados – onde você só tira, quando se aposentar, o que poupou, mas o governo banca os desassistidos não mais com o dinheiro que o trabalhador entrega à Previdência, mas com seu próprio orçamento.

E, claro, ao lado da reforma trabalhista (revogando-se a atual e propondo uma nova, onde o poder de negociação individual entre empregado e empregador não frature direitos trabalhistas básicos) e de uma nova forma de atuação do Banco Central, com a implantação, paralela à meta de inflação, de uma meta de redução do desemprego (como o BC norte-americano faz), temos a receita de uma recuperação econômica racional e possível – e que se assemelha à receita econômica aplicada por Getúlio Vargas para superar, em três anos, a maior crise da história do capitalismo brasileiro, a de 1929.

Veja, nós tentamos a saída ortodoxa, com corte de gastos sociais, limitação de gastos públicos, elevação dos juros e aprovação de uma “reforma trabalhista’’ que deu em menos 900 mil empregos... e tentar fingir que é possível voltar à fase do crescimento dos anos 2000 usando as mesmas ferramentas – ignorando que o partido que as utilizou sujou-se na lama da corrupção, mesmo que não tenha criado o “mecanismo’’, e insistiu em políticas econômicas alucinadas, como controle de preços a la Sarney, que levaram à crise – é mero fanatismo partidário.

Um país entra em suas crises pelo fato do projeto anterior de país ter se esgotado; e não sai de sua pior crise por saudosismo, mas com um novo projeto de nação. Fingir que o relógio vai voltar dez anos no tempo é um estelionato eleitoral tão grave quanto o que foi aplicado na última eleição; fingir que o controle de preços e, após as eleições, o ajuste fiscal insano não quebrou o país é maldizer a inteligência do eleitor; fingir que é pura vítima de um golpe e ao mesmo tempo se aliar e confraternizar com os golpistas é fazer o país dançar à beira de uma nova mentira – nem todas as soluções passam pela máxima de Fernando Henrique Cardoso, “mais quatro anos’’.

Sobre o PT, por falar em "quatro anos'', basta um olhar para o último quadriênio. Venceram uma eleição prometendo manter o status quo, mas aplicaram uma receita de governo própria da coligação derrota, cortando gastos sociais e fortalecendo a crise que se esforçaram para esconder; não satisfeitos em levar à cabo um estelionato eleitoral contra o povo, ainda quedaram-se mudos diante das revelações da lava-jato. Sejamos sensatos: apesar de não ter montado o "maior esquema de corrupção do mundo'', os companheiros dele se beneficiaram. Pior: não fizeram qualquer tipo de autocrítica nem pelas propinas e "doações'' via caixa dois, nem pelas pérfidas alianças com quadrilhas políticas. Pior ainda: já estão aliados a eles de novo, depois do "golpe''!

Solução perfeita, no entanto, não há. A história nos leva a ver em um político proveniente de uma família tradicional, com trejeitos mais broncos e as vezes deselegantes (embora saiba ser humildade para reconhecer seus erros), como o único capacitado a levar o Brasil à sua quarta fase de desenvolvimento: a do alicerçamento do crescimento econômico condizente com nossas potencialidades mediante algo que não mencionei antes e que deixei por último por sua importância. A educação. Dela, ele entende: o Estado que já foi por ele governado é o campeão nacional nesse quesito. Professores não são sub-remunerados lá, nem espancados ou vítimas de deboche. E ele é o único candidato que tem um projeto firme e geral para mudar a educação brasileira, apostando nela todas as suas fichas. É o "coronel'' que gosta de colocar o professor como prioridade de suas gestões.

Não é preciso citar, também, a longa experiência política imune a processos de corrupção, os êxitos como prefeito, governador e duas vezes ministro de Estado.


Chegou a hora e a vez de Ciro Gomes, porque, como disse um conterrâneo seu, autor de "O guarani'': "o poder nasce do querer. Sempre que o homem aplicar a veemência e perseverante energia de sua alma a um fim, vencerá os obstáculos, e, se não atingir o alvo fará, pelo menos, coisas admiráveis.“ Temos diante de nós o "dragão da maldade'' suspirando por uma chance de devorar nossa democracia.

Chegou a hora de fazer o admirável pelo Brasil. Meu voto é seu!

Catilina à brasileira



Lúcio nunca foi levado a sério. Em muitos anos como político, não fez nada demais a não ser acumular patrimônio. Até que, oportunista como era, viu seu país entrar na pior crise da sua história, com antigos líderes presos e uma polarização cada vez maior entre ricos e pobres, “gente do campo’’ e “gente da cidade’’, “partido popular’’ e “partido aristocrático’’. Chegara a sua hora, pensou: defendendo a morte dos corruptos, “mudando tudo o que está aí’’, “ cobrando menos impostos para o cidadão’’ e erguendo a bandeira da “volta aos bons tempos em que o exército mandava’’, Lúcio, tendo como guru um antigo ditador, se lançou candidato ao maior posto político de seu país. E perdeu.

Mas não desistiu. Tentou por fogo (metaforicamente, espalhando notícias falsas e apocalípticas sobre os adversários; e literalmente, com muito óleo inflamável) na capital para, em meio ao caos, tomar o poder. Muitos dos que queriam “o retorno dos bons tempos’’ o apoiaram. E ele terminou morto na primeira das muitas guerras civis que dilaceraram Roma e a transformaram, afinal, numa ditadura imperial por quatro séculos.

Ao longo da história, muitos pretensos líderes tentaram reeditar a trajetória de Lúcio Sérgio Catilina. Quase todos ex-militares, cujo pensamento político variava da pura grosseria intelectual até sofisticadas construções teóricas. Nesses fluxos e refluxos da história, um padrão parece se repetir: um louco sempre “abre as alas’’ de uma fase política autoritária para um verdadeiro tirano, que se assenta no poder com base no rescaldo deixado pelo “homem-bomba’’.

Hoje, nós infelizes tetranetos tropicais dos romanos vivemos essa fase. Não é mais o nosso Catilina (cujo nome não me permito pronunciar) que é uma ameaça. É o incêndio que ele causou. O maior medo não é Catilina triunfar, já que seu próprio estilo tosco faz muita gente concordar com a velha denúncia de Cícero (“até quando abusarás da nossa paciência?’’).

É que, 20 anos depois das loucuras catilinárias, veio César e acabou com a democracia romana. Sempre existe coisa pior esperando no futuro, depois que os arautos do autoritarismo tem sucesso. 

Ó tempos, ó costumes!