quinta-feira, 1 de outubro de 2026

NO DIVÃ COM SIVALDO ALBINO - OU DO PORQUÊ GARANHUNS NÃO CRESCE


 

Não é de hoje que a política de Garanhuns é dominada pelo Prefeito Sivaldo Albino e sua família. Mas, a cada dois anos, eles precisam passar por um “ritual chato”: pedir votos ao povo. E, justamente nessas oportunidades, fazem todo mundo acreditar que a cidade está bem – “voando”, dizem – e que não há problemas a falar; só de “projetos”, “verbas” e “parcerias”. É como aquele casamento em crise que brilha nas redes sociais, mas na intimidade do lar é uma desgraça.

Garanhuns vive, assim, uma relação tensa com seu gestor: os problemas são graves, mas varridos, especialmente a cada biênio, para debaixo do tapete. Falar dos problemas é tabu. A realidade dista da imagem; a emoção é artificial; a beleza é de momento. Essa distância entre aparência e realidade não traz outra conclusão, a não ser de que tanto o gestor quanto a sua cidade precisam de uma terapia. O gestor não é sincero sobre sua gestão, a cidade sabe, e ambos fingem estar tudo bem.

E, no divã político onde Sivaldo Albino, sua família e o povo de Garanhuns devem se abrir, uma conversa séria sobre “trabalho” tem que estrelar a primeira sessão.  

Em que pese as imagens oficiais photoshopadas de obras a todo vapor e “ações” estrelem centenas de publicações pagas ou não pagas para fazer os cidadãos de Garanhuns saírem de casa para votar no filho do Prefeito e no deputado de fora, será que o governo municipal e o grupo político vêm de fato trabalhando pela cidade?

Comecemos com os privilégios. Sivaldo não apenas criou um auxílio-alimentação para si mesmo, o vice e secretários, mas brigou por ele na justiça. Anteriormente, Sivaldo propôs e aprovou a Lei nº 5.312/2024, que criou o "benefício social". Longe de ser um programa social para os mais pobres, essas letras num papel criaram, em favor do Prefeito e vice, férias remuneradas acrescidas de 1/3 a cada doze meses de “trabalho” (veja aqui).

Mas os privilégios não se resumem ao próprio Prefeito. Generoso, ele compartilha a fortuna do poder (fortuna também significa “sorte”) com seus familiares. No mínimo, são oito parentes exercendo cargos de secretariado, gestão e cargos comuns da máquina pública, ao custo de R$ 1.496.750,96 anuais (fonte: confira aqui).

Vale dizer que, se Cayo Albino for eleito deputado estadual, junto a esse quase milhão e meio, se somarão R$ 2.732.419,08 anuais só em assessores, R$ 720.879,24 anuais em salários do próprio Cayo e a bagatela de R$ 2.883.516,96 de cota parlamentar em 4 anos de mandato (fonte). Que luxo!

Depois dos privilégios, vem o trabalho em si.

E vemos muitas manifestações do Prefeito e de aliados sobre como é difícil conseguir recursos para Garanhuns. Mas será que, uma vez que esses recursos apareçam, são de fato usados pela Prefeitura?

Vamos ao caso de um recurso enviado pelo Deputado estadual Izaias Régis.

O político tem direito a cerca de R$ 8.047.000,00 em emendas ao orçamento estadual; ou seja, ele pode enviar esse valor para obra, projetos e ações no Estado inteiro. Uma dessas modalidades de envio do dinheiro se chama “emenda pix”, onde basicamente o dinheiro cai na conta da Prefeitura ou entidade pública que fica responsável de gastar o valor em um projeto.

Nesse ano de 2026, Izaías fez uso de uma “emenda pix” para mandar recursos para Garanhuns no valor de R$ 1.000.000,00 (fonte: Painel de Emendas Parlamentares Estaduais – Transferências Especiais – EmendasPIX – Portal da Transparência). Você pode pensar que Sivaldo ficou feliz em esperar receber um milhão de reais para gastar – como se tivesse tirado na Lotofácil ou no bicho.

Talvez não tenha ficado feliz, já que o município, até hoje, não recebeu o dinheiro, por culpa do Prefeito e de sua gestão.

Ora, o valor não foi creditado junto ao município, segundo o site da ALEPE, por “NÃO APRESENTAÇÃO DE PLANO DE TRABALHO OU APRESENTAÇÃO FORA DOS PRAZOS PREVISTOS” (g.n.).

Explicando: a prefeitura, por meio do Prefeito Sivaldo Albino, recebeu um aviso de que tinha R$ 1 milhão disponíveis para transferência imediata, com o fim de investir em obras, mas não apresentou o Projeto para executar os valores (dizer qual obra iria fazer, em quanto tempo, qual a execução etc.):

Fonte (SEI/GOVPE - 93370405 - GOVPE - Ofício).

Veja aqui a assinatura do prefeito, onde ele se comprometeu a seguir uma série de regras simples para que o município recebesse o dinheiro (veja aqui):

Como o município não enviou absolutamente nada a não ser a aceitação para receber o valor, o dinheiro está travado e talvez nunca chegue aos sofres municipais. Afinal, porque receber valores mandados pelo líder da oposição, certo? As ruas esburacadas que aguentem o deputado Carreras mandar o que sobrar das emendas dele.

Daí, podemos imaginar: o quanto de recursos Garanhuns não perdeu, simplesmente porque o Prefeito e sua equipe não fizeram o projeto para executar uma obra? Só podemos especular, mas eu apostaria que foi muito dinheiro!

Sabe aquele apostador da Lotofácil que ganhou o milhão, não foi pegar a grana e perdeu o prazo? Pois é, se Garanhuns fosse uma pessoa, seria justamente esse cara que ganha, mas não leva!

E a perda desse milhão nos conduz à reflexões ainda mais interessantes.

Ainda falando em trabalho, nossa terapia continua exatamente com isso: quem trabalha para o município sob o comando dos Albino.

Esse é o perfil dos servidores e trabalhadores da Prefeitura:




Fonte: Garanhuns - TomeConta.

Atente-se: 66,87% dos trabalhadores públicos são contratados ou comissionados. Todos dependem da vontade do Prefeito para continuar em suas funções e são submetidos à constantes renovações de contrato. Basta notar que a maioria tem como data de ingresso os primeiros meses de 2026.

São trabalhadores que laboram sob medo de perseguição e obrigados a servir ao poder; muitos sonham em se tornar concursados, o que, hoje, é um sonho distante.

Já outras cidades, como Caruaru, tem apenas 36,44% de contratados na folha de pessoal (fonte: Caruaru - TomeConta).

Ou seja, cidades modernas tem baixo índice de contratados e comissionados; cidades arcaicas tem índices altos. Isso não significa que a mão de obra da prefeitura de Garanhuns é menos qualificada, apenas muito mais dependente da vontade do gestor – e acabam se convertendo em militância política muitas vezes involuntária, principalmente em uma cidade de poucas oportunidades na iniciativa privada. Ou seja, daí para o burnout, é um pulo; o servidor que trabalha mal atravanca a Administração, tanto quanto os cargos desnecessários (que são muitos, diga-se!).

E vamos continuar a falar de trabalho.

Sabemos que uma Prefeitura, principalmente na realidade do interior do nordeste, precisa correr para trazer investimentos para seu território. Muitas fazem isso usando incentivos fiscais, ou seja, descontos nos impostos. A empresa faz as contas e percebe que, se se instalar em um município e não em outro, vai aumentar a sua margem de lucro por conta da diminuição de impostos. E, se topar, gera empregos e movimenta a economia local.

Aí entra outro instrumento de desenvolvimento municipal, a política tributária, que também é mal utilizada. Garanhuns concede isenções para empreendimentos específicos, como energia solar (fonte: 64-20250529182159.pdf) e serviços de programação e informática, que pagam 2% a título de Imposto sobre Serviços (fonte: Lista de Serviços (ISSQN) v.4).

E os últimos incentivos fiscais registrados na cidade (fonte: Instagram) foram a distribuidora de produtos da Nestlé e uma empresa de brokerage. Poucos empregos, nenhuma indústria.

Aí perguntamos: onde estão os grandes empreendimentos em Garanhuns, fora grandes atacadões e esses exemplos citados?

Eu respondo: estão bem longe de Garanhuns, onde não tem incentivo fiscal!

E aí perguntamos: será que, pelo menos, a Prefeitura aplica seus recursos na cidade? Será que contrata empresas de Garanhuns para executarem obras na cidade?

De início, veja-se que a Receita Total Arrecadada na cidade foi de R$ 640.033.677,84, em 2025. No mesmo ano, foram gastos R$ 689.674.586,94. Já começamos a dizer que a cidade gasta mais do que arrecada, o que é péssimo para quem quer ter uma rotina de investimentos saudável e ainda mais péssimo quando você tem R$ 256 milhões de empréstimos a pagar até 2034 (fonte)!

Ou seja, se gastamos menos do que arrecadamos, deveríamos pelo menos gastar aqui, correto?

Não muito.

Por exemplo, a empresa B L CONSTRUTORA E SERVICOS LTDA recebeu da Prefeitura de Garanhuns, em 2026, R$ 3.964.770,34. Apesar disso, está sediada em Saloá (veja aqui).

Já a CASSIANO FERNANDE DE LIRA CONSTRUTORA LTDA recebeu, em 2026, R$ 4.528.560,25, e está sediada em Igarassu (fonte), mesmo sob denúncias de trabalho escravo (fonte: Instagram).

A Cinzel Engenharia Ltda, que está em recuperação judicial (quase falida, diga-se), foi contratada para construir o hospital municipal, e fica sediada no Recife (fonte: Cinzel Engenharia Ltda). Ela irá receber R$ 11.912.127,36 apenas em 2026 e aparece em 1.690 processos judiciais, a maioria de cobrança contra ela, sendo 854 desses processos no estado de Estado de Pernambuco.

Esses foram alguns dos maiores contratos mantidos pela Prefeitura, e o padrão se repete: empresas de fora, enrascadas em escândalos ou em quebradeira.

Só para matéria de comparação, em Caruaru, dos maiores fornecedores privados, apenas dois (a SOLSERV SERVICOS LTDA e a  SHALON SERVICOS DE CONSERVACAO LTDA) são de fora da cidade (fonte: Caruaru - TomeConta)

Assim, a análise dos gastos de Garanhuns demonstra a visão (ou falta de) dos gestores da cidade: há muitas despesas com artistas e pequenos fornecedores (a maioria domiciliados fora da cidade, contratados para os eventos de massa mensais) para eventos turísticos e alguns escritórios de advocacia (localizados fora da cidade, obviamente, e um deles teve o contrato suspenso por conta de uma ação civil pública, já que se identificou que esse escritório defendia quem postava fake news contra a governadora, patrocinados pelo PSB). Os empregos, recursos e até impostos ficam retidos fora da cidade.

Ou seja, o suado imposto do trabalhador de Garanhuns vai para a Prefeitura e vira renda nas mãos de empresas de fora!

Por outro lado, de todos os contratos que analisei, não se verificou gastos estruturantes (qualificação da mão de obra local, instalação de serviços de tecnologia para a população, obras viárias importantes, doação de terrenos para a instalação de indústrias etc.), o que demonstra que, apesar de o município ter elevado bastante a sua receita nos últimos dois anos, ela não foi aplicada em benefícios populares.

Vamos continuar falando de emprego e trabalho.

Se a Prefeitura não dá incentivo para grandes investimentos, se gasta seus recursos com empresas de fora, como esperar que gere bons empregos para o povo?

Veja os indicadores de emprego de Garanhuns, entre janeiro de 2024 até a presente data (Microsoft Power BI):


Percebeu um padrão?

Depois da recuperação da pandemia em 2024, Garanhuns amarga pouca geração de empregos, e também pouca perda. A economia está estagnada, e esses números, principalmente dos últimos meses, demonstram que a economia municipal parou no ar.

A redução da atividade econômica contrasta com o endividamento público, gastos com emendas e verbas federais transferidas pela União. Atualmente, em setembro de 2026, entre demissões e admissões, Garanhuns tem 426 empregos de saldo, o que é irrisório e reforça o diagnóstico de estagnação. Ou seja, não adianta gastar rios de dinheiro, se os fornecedores e empresas são de fora e se os turistas gastam pouco – e, principalmente, se a cidade não tem indústrias ou atividades produtivas de relevo.

Outro dado sobre o emprego em Garanhuns mostra o seguinte (fonte: Microsoft Power BI):

O indicador “Vr. Relativa - variação relativa” demonstra queda continuada da agricultura, construção e comércio, e altas relativas da indústria e serviços, com destaque para o último setor. Se incluem aí trabalhadores dos aplicativos, empreendedores e todos os que fazem um corre para pagar suas contas.

Ou seja, é uma cidade de baixas oportunidades, grande informalidade e ausente de grandes investimentos, já que 57 empregos de saldo na indústria é um resultado muito aquém do potencial da cidade. E isso porque as indústrias que apresentam impressionantes 2.549 empregos são alimentares, pequenos estabelecimentos de artesanato e nenhum empreendimento relevante.

Veja que a cidade já foi o centro da bacia leiteira do Estado, mas, em 2026, tem apenas um emprego de saldo na agropecuária (fonte: Microsoft Power BI).

Vamos de comparação?

O saldo de empregos de Caruaru, até setembro de 2026, é de 3.528 empregos (fonte: Microsoft Power BI):

Note o emprego industrial: 16.808 empregados, em uma cidade que possui pouco mais que o dobro de habitantes que Garanhuns, uma diferença acima de 600%!

Isso mostra o seguinte: Caruaru incentiva o emprego industrial, gasta seus recursos na própria cidade e dá incentivos fiscais para grandes empreendimentos. E cresce, e gera empregos; Garanhuns financia vagas de emprego fora do município, desperdiça recursos, se endivida e dá incentivos fiscais para empreendimentos que não geram demanda agregada.

Mas recursos e empregos são apenas dois elementos que precisam ser equacionados dentro de um planejamento.

E como os municípios brasileiros se planejam?

Através de uma Lei chamada “Plano Diretor” (Lei Municipal nº 3.620/2008), que é muito citada em Garanhuns por supostamente impedir a construção de prédios altos.

Ocorre que o Plano diretor da cidade não é atualizado há 8 anos, e já há quase três anos o Ministério Público processou a prefeitura por conta do desleixo (fonte: Instagram), e só em 2026 se abriu uma licitação para contratar uma empresa para tal tarefa (fonte: V&C: Prefeitura de Garanhuns abre licitação de R$ 1.635.800,00 para revisão do Plano Diretor).

Enquanto isso, sem Plano Diretor, Garanhuns cresce de forma desordenada, sem direção e sem juízo, e perde investimentos federais e estaduais importantes por não ter atualizado uma peça básica de planejamento urbano.

Ademais, sem um Plano Diretor atualizado, a cidade perde receita tributária e não consegue apresentar bons projetos (se é que apresenta) para receber recursos via Convênio, repasse ou projetos do governo federal, estando na linha perigosa na qual estão 136 municípios que sequer possuem Plano Diretor (fonte: Falta de plano diretor deixa 136 municípios fora da lei no país).

E, pimba!, voltamos à emenda do deputado Izaias Régis, que não foi executada porque o município não tinha projeto. E não apenas nesse caso, mas o município não tem projeto de desenvolvimento, de incentivos fiscais, de gastos estruturantes, não tem sequer um Plano Diretor atualizado!

E aí voltamos ao divã.

Surge a despreocupada figura do Prefeito de Garanhuns que, após seis anos no poder, sabe de todo esse quadro que conversamos, mas prefere fingir que está tudo bem. O povo sabe que não está; afinal, a carteira de trabalho sem anotações e a conta bancária no vermelho mostram isso; no celular, mensagens de familiares, amigos e conhecidos que foram para outras cidades e Estados do país sempre dizem: Garanhuns não tem futuro...

E tudo se resume a isso. Quando as duas partes de uma relação sabem que não tem futuro, como devem resolver seus problemas?

Garanhuns precisa entender que vive uma relação abusiva com seus gestores: paga uma montanha de impostos, tem empregos de baixa renda, não vê futuro para si, enquanto a outra parte da relação somente se beneficia. Uma das partes trabalha, mas a outra, não. Nem mesmo quando ganha um milhão e meio de reais para si e para a sua família!

As vezes, a terapia indica um divórcio. O sorrisão despreocupado do Prefeito indica uma pessoa que nunca pensaria nessa palavra. E esse divórcio vem das urnas, quando elas, um dia, finalmente lhe apontarem a porta de saída da Prefeitura.

Um dia, Garanhuns irá se libertar desse relacionamento abusivo, revisará suas políticas, fará um novo Plano Diretor, terá grandes indústrias em seu território, gerará empregos de alta e média renda. Isso é fatal: tendo todas as condições para se desenvolver, um dia esse parto alcançará seu êxtase.

Crer no futuro, apesar da modorra cinzenta do presente, e crer na força do trabalho como transformador da realidade; e se o Prefeito não o quer, 140 mil almas estão dispostas a, um dia, lhe dizer o contrário.

Fim da sessão!