domingo, 16 de fevereiro de 2014

"Hay que abrirte, Venezuela, pero sin perder la ternura jamás...''



Apesar de inexistir, em termos de política, um "caminho certo'' que deve ser seguido por todos os países, como se todos obrigatoriamente devessem seguir uma cronologia definida - e muitas vezes calcada na experiência dos países ditos "desenvolvidos''- algumas características são vitais para o desenvolvimento de qualquer país. Algumas tão vitais quanto oxigênio o é para um corpo animal: uma vez sem respirar, um corpo entra em lenta autofagia, consumindo a si mesmo para perpetuar-se um pouco mais. E, surpreendentemente, a Venezuela se mostra a prova viva de tal máxima da experiência política, logo ela, a nação que sempre foi uma exceção, em tudo, na américa latina. Na era das repúblicas oligárquicas, era um regime populista; na era sombria em que as ditaduras militares varreram o continente, manteve seu Estado de direito incólume.

Mas que Estado? Um poderoso pacto social entre uma elite latifundiária e grandes empresas do setor petrolífero, ao lado de uma população silenciada e inerte, que durou por mais de 50 anos. Em tese, foi como se o regime das oligarquias, que dominou a América latina até a década de 30, jamais tivesse se encerrado em terras venezuelanas. O atraso político fez com que as insatisfações sociais se acumulassem e explodissem quando a economia foi destroçada pelas políticas liberais efetuadas pelas velhas elites. Protestos irromperam, levando o governo, despreparado para questionamentos populares, a perseguir violentamente e tentar esmagar as manifestações. O líder da oposição, um jovem militar, tentou um golpe e foi preso. Mas quem prendeu-se foi o governo, cada vez mais, na sua incapacidade de fazer concessões ao povo. Acabou morto pela autofagia e apeado do poder pelas eleições, mesmo valendo-se de fraudes e ameaças golpistas para permanecer no poder. E foi sob os ombros de um militar carismático que o povo depositou suas esperanças de liberdade e igualdade. Iniciou-se o governo Chávez. Me perdoem os críticos, mas sua vitória e seu governo foram o equivalente, no Brasil, a algo como a revolução de 1930 em conjunto com a eleição de Lula. Para o bem ou para o mal, uma quebra de paradigmas vigentes desde sempre, de um pensamento único vindo das mentes de uma classe mínima que mandava e desmandava no país. Benefícios foram cedidos, as rendas do petróleo foram deslocadas para a tentativa de construção de um Estado de bem estar social, empregaram-se todos os esforços para combater a fome e o analfabetismo.

A economia cresceu quando o Estado elevou nela seu peso e, ainda mais, depois que a mal-acostumada oposição de direita tentar um golpe desastroso, comprovadamente organizado pelos EUA, conforme assumido pelos seus líderes. O golpe levou o povo às ruas e deu a Chávez uma aura mítica de herói, consolidando sua imagem de um Davi popular que estava a lutar, com as pedradas do auto-proclamado socialismo do século XXI, contra o imperialismo ianque e a elite nacional. A fome foi praticamente extinta; o petróleo, nacionalizado, junto com, gradualmente, outros setores da economia. A população participou, como nunca antes, de forma entusiasmada de quatro eleições presidenciais para repor, com cada vez mais entusiasmo, o colar dourado do primeiro mandatário venezuelano sob os ombros de Hugo Chávez. Mas nem tudo foram flores: a população rejeitou a possibilidade de eleições indefinidas e restringiu o poder presidencial de governar por decretos. Democrático, a meu ver. Mas tal como, uma hora ou outra, o Vargas brasileiro ou Lula teriam de se ausentar da cena política, assim ocorreu com a Venezuela. Mas a oportunidade não foi percebida por Chávez.

O populismo chavista foi um avanço político inegável, ao trazer as massas para o poder, mesmo que de forma indireta, em comparação à república oligárquica de antes. Mas sua função, em qualquer país, é provisória, embora nobre: a de pavimentar o caminho para a construção de uma democracia popular, como ocorreu com o Brasil. Uma vez integradas ao poder na era Vargas, o povo quis mais do que delegar todo o poder a um líder carismático; não desejou mais ser agradado com concessões, mas dar ensejo, ele mesmo, às próprias políticas; quis ter as benesses sociais do governo sem sustentar o alto ônus de viver sob o autoritarismo. Quis exercê-lo de fato, como uma criança que atinge, um dia, a maioridade, e não necessita mais dos pais. E tivemos nossa república de 46, a mais democrática, apesar de frágil, de todas: em seu apagar das luzes, 67% do PIB estava nas mãos dos trabalhadores das cidades, com o menor índice de desigualdade de nossa história. Por infelicidade, a Venezuela fugiu desse caminho ideal e perpetuou um regime populista, sustentado por um Estado forte que não mudou o modo de produção do país, mas seu consumo: utilizou o dinheiro do petróleo para proporcionar uma vida mais confortável ao povo, embora ao custo de manipulações cambiais e uma impressão geral de moeda que levou à inflação e desabastecimento e hoje cobra um preço alto.

O câmbio fixo e controlado pelo governo é vital para o regime, na medida em que os investidores internacionais, diante do aumento de estatização do país, não demandariam títulos ou moeda do país em um cenário hipotético de câmbio flutuante, incorrendo em sua desvalorização e consequente inflação, algo que de toda forma acontece com o câmbio fixo de hoje. Morto Chávez, seu sucessor, um político interiorano sem carisma, conseguiu eleger-se legítimo presidente. Mas não teve a capacidade de perceber as limitações do estatismo e, meramente mantendo o status quo, levou o país à bancarrota econômica. Transformou a estatização em algo definitivo, o equivalente a reformar um barco que antes ia de vento em popa e retirar-lhe as velas, para fortalecer o controle através do leme. O piloto, ou seja, o governo, tem controle total do barco, mas quem disse que, sem velas, ele sairá do lugar? Será, sim, corroído aos poucos e apodrecerá. Como um corpo, faltará oxigênio.
Assim se encontra o governo Maduro, incapaz de dialogar com a sociedade e acuado, cada vez mais, por uma juventude que vem encontrando apenas respaldo na direita política oportunista, insuflada pelas medidas de repressão tomadas por um governo "popular'' contra seu próprio povo. Governo que foi bem sucedido em diminuir as desigualdades sociais, mas fracassou em fixar bases para que essa redução seja permanente. Por que as propostas da oposição para combater o descontrole econômico são advindas do velho coquetel neoliberal, eficiente a curto prazo, mas socialmente desastrosas. Contra elas, o governo desfere acusações sensacionalistas que, embora tenham um fundo mínimo de verdade (alguns estão sempre prontos para um golpe), não escondem a própria culpa no caos reinante. Os radicais do governo insistem em levar a cabo uma política econômica falha e os radicais que lideram os protestos, por sua vez, não abrem mão de por em prática as mesmas medidas neoliberais cujos resultados, há quase duas décadas, levaram Chávez ao poder. Duas fórmulas de fracasso que não levam a lugar algum. 

A Venezuela necessita mais do que nunca que o governo realize uma análise fria do cenário econômico e faça o necessário; mais que isso, que abra as portas ao diálogo com as forças que o questionam, sem ter medo de enfrentar um debate público com a oposição. Protestar é um direito do povo, seja movido por quis bandeiras forem, e um governo popular deveria ter ciência disso. A retirada do Estado de certos setores da economia, o corte de despesas públicas com pessoal, a instituição do câmbio livre , não objetivando uma liberalização pura e simples, podem propiciar que Estado tenha condições de investir não em empresas públicas mal-planejadas, mas na educação e na saúde arruinadas, bem como num aumento dos benefícios sociais. Fortalecer a moeda e direcionar os gastos públicos para as áreas que, uma vez alvo de investimentos, gerarão maior queda na desigualdade social serão mais "socialistas'' que manter um capitalismo de Estado desvairado que une o pior do capitalismo - a concentração de riqueza- com o pior do socialismo -  concentração de riqueza, nas mãos do Estado! 

Se um corpo está sem ar, ele deve respirar, antes que sufoque. Abrir as portas, dialogar, assumir os erros, propor medidas que recuperem o país, ouvir. Esse é o caminho necessário a todo país que deseja seguir os conturbados e nada áureos caminhos da democracia... tão bom seria que tivéssemos super-governantes, verdadeiros filósofos dignos da República platônica,  que pudessem por nós tomar todas as decisões difíceis e, o que é melhor, acertar. Infelizmente tais homens não existem e, quanto mais dialogarmos com o maior número de pessoas o possível sobre as decisões delicadas que se deve tomar, mais chance de êxito teremos. Nisso consiste a democracia: não uma ditadura da maioria, como se efetiva na Venezuela, mas um espaço onde todos possam opinar, ser ouvidos, ter a chance de convencer uns aos outros e, acima de tudo, de construir conjuntamente uma solução pra os desafios que se apresentam. O apoio do povo ou da maioria não basta para caracterizar um governo como democrático, mas sim o procedimento aberto de discussão, algo não verificado ou ainda não desenvolvido pela Venezuela, mas aprendido pelo Brasil. É hora de instituir uma verdadeira democracia, porém sem jamais perder o Estado social tão duramente conquistado: eis a combinação que é o germe para o advento de um regime político novo, além do socialismo e do capitalismo, uma síntese tão esperada entre ambos. Talvez a Venezuela impressione novamente e, fugindo à regra, consiga ser o laboratório onde essa nova experiência possa se dar. E irradiar essa luz de novos tempos por todo o globo, como a luz, hoje apagada, do socialismo fez um dia.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Dirceu e Genoino: o crepúsculo da geração de 68


Hoje o país se dividiu em comemorações e manifestações de repúdio. Como é típico, afinal, de uma nação historicamente dividida em dois pólos políticos que se enfrentam e se revezam no poder desde a independência. José Dirceu, o verdadeiro poder por trás do Lula do conto de fadas, está encarcerado. Genoino, outro manda-chuva do partido mais popular do país, idem. São dois nomes que, a independer de suas atuais funções na política nacional, trazem à lembrança de todos os que viveram e sofreram com o jugo da ditadura imagens, no mínimo, de herois. Dirceu era líder estudantil e comandou a histórica passeata dos cem mil embalado pela morte de Edson Luiz; Genoino combateu no Araguaia, foi torturado e massacrado. 

Ambos representam uma geração histórica que se convêm chamar de "geração de 68'', que se formou politicamente na luta contra o regime militar e, com Fernando Henrique Cardoso, chegou ao poder, a independer de suas divisões. São políticos, diga-se, que formularam um modelo político de desenvolvimento misto, com as bases do nacionalismo trabalhista de Vargas com nacos da doutrina socialista, que no Brasil consistiu, em sua evolução, na proposição de um Estado de bem-estar social cristalizado na Constituição de 1988. A carta magna atual, assim, é o símbolo maior de sua vitória política sobre as forças reacionárias que apoiavam o regime. E os dois condenados petistas foram peças-chave na garantia, no texto constitucional, de uma série de direitos sociais e da instituição de uma ordem econômica gerida pelo Estado. Por outro lado, eram defensores, como herdeiros da rebelião juvenil de 68, de uma maior liberação moral e flexibilização dos costumes. 

O que é interessante observar é que essa geração só toma o poder quando uma vez coligada com as forças que sempre combateu. Coroneis do interior do país ligados ao PMDB, ruralistas do PR, industriais de vários partidos. Formalmente, a ideia era estruturar um grande pacto entre capital e trabalho, unidos pelo desejo de retomar o desenvolvimento nacional, em uma aliança que possibilitasse uma histórica conciliação entre exploradores - alguns dos quais um dia apoiaram o regime militar ou surgiram pelas benesses dele, financeiramente falando- e explorados. Mas na verdade a frouxa aliança escondia a adesão da heroica geração de 68 à velha forma de fazer política: distribuir poder, fazer alianças em detrimento do pensamento ideológico e vontade popular enriquecimento através da coisa pública. A política das boas relações e do presidencialismo de coalizão. 

E eis que pagar dívidas de campanha dos aliados políticos é praxe nesse jogo de poder, e foi assim que Dirceu e seus "comparsas'' arcaram com os débitos do PTB e de alguns políticos isolados. A isso foram juntados uma serie de fatos desconexos, como o contrato ente o BB e a agência de publicidade Delta de Valério, a qual recebeu uma bonificação de volume musculosa, entendida como dinheiro público (quando todos que trabalham no meio publicitário consideram dinheiro da agência...) e o suposto pagamento de propinas a um ex-deputado petista, também através de contratos de publicidade. Tudo isso foi amarrado numa lógica duvidosa e criou-se a ideia de que "se tratava de uma quadrilha'' embasada pela ideia de que, se Dirceu comandava o governo na Casa civil e o partido, ele necessariamente deveria "comandar também'' as ações "criminosas'' desenvolvidas pelo grupo do poder, por que tem o domínio final do "fato''. E o resto é história. 

Hoje todos foram presos, como uma vez foram no regime militar. Dessa vez não por perseguição política, mas por vontade política do STF em reprimir as práticas da "boa e velha política'' tão presentes ainda hoje. Isso é positivo, indubitavelmente... contudo, me espanta a seletividade do Tribunal supremo. Há 15 anos o "mensalão tucano'' espera por julgamento, e a partir do próximo ano a pena em abstrato de boa parte dos envolvidos vai prescrever. Triste ver o fim de Dirceu e Genoino, que arriscaram a vida em nome de ideais elevados, encarcerados por terem cedido às mesmas tentações do poder que tanto combateram quando jovens e idealistas. Apertaram as mãos dos homens que, um dia, armaram os militares para combatê-los na ditadura; tomaram champagne com os que beberam o sangue da nação; deram os braços aos que uma vez os apedrejaram. E o fim não poderia ser diferente. Por que a história e o povo condenam muito mais facilmente e pesadamente os idealistas e herois que se deixam corromper do que aqueles que são vilões assumidos desde sempre.

Assim, além do rigor do julgamento incidir mais gravemente sobre os mocinhos do que sobre os bandidos (alguém acha que uma condenação do Batman não seria muito mais pesada que a do Coringa?), talvez Dirceu e Genoino tenham agora de realizar uma última contribuição para a política nacional. Se uma vez lutaram contra o regime militar, hoje suas imolações na cadeia podem os tornar símbolos de uma nova era de intolerância, em todos os níveis, não com a corrupção em si, mas com as práticas políticas arcaicas que ainda prendem o Brasil ao pior dos subdesenvolvimentos: aquele voltado para o enriquecimento de uma elite cada vez mais robustecida. Sua punição por aderirem à velha política pode, quem sabe, representar uma mudança na cultura política incutida por um repúdio generalizado ante à classe política. E, mesmo agora vilões, terão feito mais pelo país do que quando, um dia, subiram ao pedestal glorioso de herois na luta contra o regime militar. 

domingo, 3 de novembro de 2013

Todos os "santos'' - o que é a santidade?


O que é a santidade? Há pouco tempo, pensava eu que "santidade'' era uma característica inatingível portada por homens e mulheres esculpidos em pedra que decoram as Igrejas. Pessoas que eram muito diferentes das quais se encontra habitualmente: modelos de perfeição moral, marcados pela dor e sofrimento em renegar ao mundo para servir a Deus. O sacrifício por eles feito, assim, me estranhava e até mesmo assustava; pareciam eles tão distantes de serem alcançados quanto as estrelas dos céus; totalmente inumanos, pois negavam, com suas renúncias, ao que me parecia mais natural ao ser humano. 

Essa mácula de tristeza, seriedade, pudor e abstracionismo, descobri, não passa de pura invenção ou estereotipação que é imposta pelo senso comum. A santidade não é algo que está além do homem, mas, sim, é intra omnes: ser santo é seguir a própria e verdadeira natureza humana. Não a fisiológica, mas a espiritual, a de amar sem medidas, tal como Deus, e por isso se entende doar todo seu ser em prol do próximo. E, longe de serem pessoas tristes e infelizes, os verdadeiros santos são poços eternos de alegria e felicidade, por que encontraram a fonte do amor na doação. O único sacrifício que fizeram foi o dos seus próprios interesses e vontades mesquinhas em prol dos demais seres vivos. Amaram, como Deus amou, até o fim de suas forças e, ao perder sua vida, acabaram por ganhar uma nova, eterna. A maioria desses santos, contudo, não são venerados nas Igrejas. 

Um sem número deles jamais serão conhecidos, mas o amor que praticaram os fez adentrar ao Reino eterno. Essa maioria, contudo, é de pessoas simples, tal como pronunciado no Evangelho "para adentrar a Meu Reino, deveis ser como crianças''. Isso não significa, por sua vez, portar ingenuidade ou inocência. Uma criança se diferencia de um adulto por ser "vazia'', livre de ideologias, filosofias ou preocupações materiais, e totalmente confiante em seus pais. Deve-se estar vazio, livre da "riqueza de espírito'' para aceitar a Deus e Nele confiar como uma criança confia em seus pais. Isso é "ser pobre de espírito'', mas rico de Deus. Não é por caso, por outro lado, que alguns dos maiores santos foram pessoas pobres, materialmente falando: a miséria e a abnegação dos bens do mundo auxilia numa maior valoração da cooperação coletiva e incute uma busca permanente pelo bem estar do próximo. As pessoas mais felizes que conheço, certamente, são aquelas que voltam para casa, depois de 8 ou 10 horas de trabalho cansativo, satisfeitas em terem uma família ou amigos para quem se doam completamente. 

A pobreza de espírito, assim, não raro, coincide com a pobreza material, e não por outro motivo que Jesus tanto andava entre os pobres e marginalizados; é contra eles que a dor vem mais forte, e é no solo fértil da periferia que as sementes de Cristo afloram mais rapidamente. A questão da pobreza conduz a mais uma indagação. Como pode, diante da santidade dos pobres, o Criador permitir tanta opressão contra eles? Será Ele injusto? De que vale ser santo? Tais indagações, que levam muitos a se afastarem da Igreja, é respondida pelo fato de que a justiça de Deus não é a do "olho por olho'' talionesca e erroneamente disseminada pela teoria da retribuição (Deus castiga os injustos e premia os justos) mas sim a da misericórdia. Ele não pune um tabefe com outro; dá a outra face. Não fez cair um raio sobre os que o crucificaram; perdoou-lhes e, assim, os salvou. Assim, ao invés de conclamar a destruição dos opressores, Deus oferece o caminho do perdão, por que a traça e o tempo irão erodir toda a riqueza e poder pelos quais os grandes do mundo tanto se sacrificam. Só o que restará, na vida eterna, serão as boas ações desta vida e perdoar quem oprime e mata por ganância é uma das melhores possíveis; por que são os próprios pecados que condenam o pecador, e a desvirtude é uma forma lenta de suicídio, já que Deus nos brinda com o caminho da vida, mas preferimos, conscientemente, o da morte. Deus não condena, salva e perdoa. 

É nesse ponto da justiça que existe uma falsa dicotomia entre santos e pecadores, como se as duas esferas não pudessem se tocar. A verdade é que todo santo tem seus pecados e todo pecador suas santidades. Contudo, em determinado momento da vida, o santo escolheu superar seus pecados em nome de um bem maior, enquanto que o pecador foi incapaz disso, negando assim sua natureza e condenando a si mesmo à tristeza e morte. O inferno, assim é uma criação da humanidade, e está aqui, ao nosso redor, disfarçado de paraíso material. O custo de nossos prazeres consumeiristas é a miséria de mais da metade do mundo, fome, doenças alastradas, trabalho infantil, condições espúrias que aceitamos para ter um celular ou um carro da moda. O inferno é a destruição das vidas de tantas pessoas, seja pela pobreza seja pela depressão, por um sistema econômico e cultural corrupto, assassino auto-proclamado divino e inquestionável. É o "príncipe deste mundo'' que antes era o império romano e hoje é o capitalismo todo-poderoso, absolutizado; é com ele que não podemos coadunar. Não é possível servir a dois senhores, da mesma forma que não podemos alimentar o capitalismo consumeirista e suas terríveis consequências e ao mesmo tempo portar-nos como servos de Deus. Quantos mais pobres e famintos teremos que sacrificar nos altares dedicados aos novos césares?

Curioso é notar que esse sistema utiliza-se do cristianismo, muitas vezes, como ferramenta de consolo provisório, verdadeira ideologia de auto-ajuda que acaba por renegar a essência do próprio cristianismo. A auto-ajuda é um ode ao egoísmo: um monte de palavras escritas em um livro me ajudarão a ficar em paz, por pouco tempo; eu "me ajudo''. A salvação e a paz do cristianismo levam o homem além dele mesmo: é ao ajudar o próximo que evoluo, e é Deus, não eu mesmo, quem pode me conduzir nesse caminho. E esse é o caminho da santidade, e fora dele não há felicidade possível. Todas as outras formas de felicidade são degenerações desta em especial, por que invertem os polos básicos da felicidade oriunda da doação ao próximo: a pseudo-felicidade é uma forma de auto-adoração, de satisfação consigo mesmo, não com os outros ou com Deus. É uma auto-enganação.


Assim, um verdadeiro santo não tem um coração de pedra como as imagens presentes na Igreja; mas de carne, que pode se ferir e verter lágrimas, sem contudo deixar de amar a tudo e a todos como Deus ama aos seus. Tampouco seguir padrões rígidos de conduta, desumanizados; mas sim realizar a verdadeira natureza humana e, ao perder sua vida em prol do próximo, encontrar a vida eterna e a felicidade sem fim, realizando a justiça de Deus nos mais divinos atos de amor: dar a vida pelo próximo e, realizando a justiça de Deus, perdoar. A perfeição não consiste na adesão e cumprimento de postulados morais vazios, mas sim a vivência prática do amor incondicional, sendo esta a natureza humana, "imagem e semelhança'' de Deus. Santidade e felicidade, assim, são duas faces de uma mesma moeda.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

"Carta perdida'' - capítulo 3





"Paris, 28 de outubro de 1893


 Minha doce alteza,

O burburinho típico de meus círculos sociais fez a mim chegar uma notícia muito diversa das que estou acostumado. Nos cafés frequentados por minha decadente casta ociosa, vosso nome ouvi. Atentei-me um pouco mais, endireitei-me na cadeira. Meus ouvidos beberam cada palavra que me era dita sobre ti como as abelhas que sorvem néctar das flores para semear a vida.

Foi assim que, como um trovão numa noite escura, soube que estavas de volta à cidade. Meu peito deu saltos, meu espírito avermelhou-se mais que meu rosto e meu pensamento dava voltas em torno de teu eixo magnífico... nada mais quis fazer que não encontrar um meio de ver-vos, depois de nossa prolongada ausência um do outro. Saí do café J'Rome saltitante como uma criança e, não obstante a modorra cinzenta do velho nublado de Paris, em meu ser um belo sol de primavera brilhava como nunca antes. Corri a tomar um coche e parti para a mansão de tua família, sob um pretexto qualquer.

Pobre cocheiro. Penso que nunca recebeu tantos xingamentos dos transeuntes. E isto por que eu lhe prometia, minuto a minuto, aumentar sua gorjeta caso chegasse mais rápido ao meu destino, o que o estimulou a tentar algumas manobras arriscadas. A pressa valeu-me uma conversa rápida com a cavalaria republicana, que patrulhava as ruas nesta tarde; não obstante o aborrecimento, quase dei um abraço no truculento sargento que me perguntou o motivo de tanta, e tão perigosa, pressa. Prossegui na minha jornada...

E foi percorrendo as ruas em direção a ti que passei pelos lugares mais importantes para nós, como que revivendo, um por um, todos os capítulos que já escrevemos desta pequena tragédia, romance, comédia... a triunfal Casa do abutres, o Parlamento de Paris, onde cingistes os umbrais antes só reservados aos homens como mera ouvinte, e me vistes a portar a toga dos velhos oradores. Ao adentrar àquele recinto com cheiro de bolor, tédio e esquecimento, senti algo diferente no ar. Um doce perfume, e uma luz rarefeita, que, como um clarão, cegou-me a vista, quando nos teus olhos olhei. Perdi-me no seus mares escuros; arrebatado fui, como que eletrizado por um raio, e balbuciei pela primeira vez na vida ao ministrar meus deveres. Saí daquele lugar com o coração a romper a boca, banhado de suor, tonto de incerteza. Será que tu virias  novamente? E tu, quem eras?

Os dias que se seguiram, sem tua visão, foram como que uma noite incerta. Na mesma noite que o navegante sente ao deixar sua terra e aventurar-se pelo mar, assim fui eu, atormentado pela chance de não mais ver-vos. E não é que, depois das festas de fim de ano, lá estavas? Altaneira, com um belo vestido de veludo negro, um véu a cobrir-lhe as faces delicadas e a pele branca, os cabelos louros soltos, caindo como que uma cascata de sol a me deslumbrar o olhar. E aqueles olhos, que a mim voltastes novamente. E, mais uma vez, fiquei cego.

Depois dos discursos ordinários, recebi os cumprimentos de meus pares e, para minha surpresa, lá estavas tu entre eles. Ao apresentar-te, logo reconheci em vós o nome, as posturas e a docilidade que só a realeza feminina pode portar.  E quão doce era tua voz! Mais que o sibilar dos pássaros, reconfortante como a brisa da tarde, mais penetrante em meu espírito que uma espada afiada. 

No mesmo dia, por meio de um amigo, que por sua vez conhecia outro, consegui ser convidado a um jantar a ser dado pelo teu pai, o príncipe, na mansão herdada por vós após o exílio de tua Casa. Tomei intimidades com os teus, troquei risadas com teus progenitores, demonstrei todo meu vigor intelectual. Mas não estava ali; meu olhar trôpego mal divisava as pessoas ao meu redor; as belas damas convidadas a mim pareciam parte da decoração. O que era isto, Deus, que sentia ao vos ver ali? Uma forma de loucura, uma doce obsessão, uma paixão ordinária? 

Descobri que não era nada disso. Algo muito maior, deveras.

Passei a frequentar vossa Casa daí em diante. Piedosamente, teus nobres pais me pediram que vos ministrastes lições de latim e grego. Posso dizer que, à cada aula, era eu quem mais aprendia. E cada vez, me desconcentrava mais e mais. Logo, em teus olhos não mais vi o brilho da curiosidade... teus gestos, o tom de tua voz, a forma como, ao vos deixar desfechando as lições, parecias desesperada pela minha partida. Estavas tu a enlouquecer também?

A grande Igreja de Santa Madalena cresceu, em seguida, sob meus olhos. Lembras quando lá nos encontramos ao acaso? Eu, antigo pretendente ao sacerdócio, das últimas bancadas divisei teu esplendor. Que o Divino Cristo me perdoe, mas reluzistes mais para mim naquele dia mágico que a cerimônia sacra, e as palavras do senhor bispo escaparam-me dos ouvidos, nos quais só tua doce voz, vívida nas minhas lembranças, ressoava... lá foi que, na hora da comunhão, nos esbarravamos sempre, levemente, para sentir um ao outro. E tantas vezes alegastes indisposição e fostes tomar ar nos ofícios, para ver-me na pequena rua ao lado... pequenos abraços, doces olhares, palavras apaixonadas dali surgiram. Assim te tornastes devota de Santa Madalena, e das fervorosas, por que nunca mais frequentou outra Igreja. Nem eu.

Foi assim que, depois da Igreja de Santa Madalena, meu coração bateu mais forte ao divisar o Café Dominique, tão forte quanto os sinos que conclamavam os fieis para a Missa da tarde. Para lá, num lugar discreto da cidade, perto do antigo palácio real, vos convidei numa tarde quente de julho. E que belo dia... a rigidez entre nós quebrou-se, risadas brotaram, junto a olhares que nos faziam calar por longos minutos. De lá sai, ao vos deixar de volta em tua mansão, como criança a andar pelas ruas tortas perto do Sena, e em longas noites, cantei, como boêmio, as proezas de tua beleza. Diariamente, publicava eu um pequeno poema no Jornal da Manhã, dedicado, secretamente, a ti. Segredos, como sempre. Afinal, és a noiva do príncipe herdeiro de tua terra.

Dizia Cícero que é triste ao homem formar para si ilusões com o fim de negar a realidade. Por mais que me distinguisse na oratória parlamentar ou nos círculos burgueses de Paris, nossos mundos não podiam coligar-se. Teu sangue nobre te forçava a enlaçar-se com outro ser de origem alta. Mas, mais do que nunca, estava eu cego, e conduzia minha carruagem para o abismo das frustrações; desobedecendo Platão, deixe guiar-me pelos cavalos dos sentimentos, afrouxei as rédeas e pus em ferros o condutor da razão. 

Toda paixão que, tal como uma rosa num campo de flores, não deveria nunca ter crescido, passa a causar contratempos. E, gradualmente, conflitos surgiram entre nós, devido à impossibilidade de futuro que tal sentimento, embora grande e sincero, nos impunha. Mas, na medida em que as pequenas brigas aumentavam, a brasa da amor ardia mais forte. Cobri-te de presentes, e tu a mim, e vivíamos em um conto de fadas entremeado por pequenas tragédias ordinárias. Cartas, quantas cartas trocávamos? Pelas noites sem fim, pelos dias longe um do outro. Sentia eu uma agonia, uma dor, certo desespero que não se sabe descrever, e meu espírito só encontrava paz com tuas palavras ou tu presença. E assim era com tu... quantas loucuras e sacrifícios, alteza, pareceram ínfimos ante às vezes que nos vimos na calada da noite?

Foi assim que divisei, entretanto, a rue de Sommeile, tão escondida, onde eu alugara uma pequena casa de varanda onde podíamos nos ver sem incômodos. Ou com menos incômodos. Ali, o doce mel que tanto admirei em ti pude sorver, e tuas mãos pude acariciar; a teu rosto pude finalmente aferir quanta maciez ele denunciava ter; teu perfume aspirei mais que os pobres chineses viciados em ópio. E, também, quantos gritos e blasfêmias dissemos um ao outro, em nossos momentos de tensão...

Todos os grandes amores encontram seu ocaso em pleno auge.

Uma estrela, dizia Ovídio, só mostra o quanto pode brilhar quando despenca do céu, atingida pela inveja dos deuses, que sempre desejam emitir mais luz que toda a criação. Talvez por inveja, mas as três velhas que fiam o destino dos homens e Saturno, este deus cruel, atiraram pedras à ilusão que juntos construímos. Ilusão, alteza, de que o conto de fadas para sempre dura, e que seus finais são felizes. Na verdade, tal como o feitiço que tornou a plebeia princesa até a meia-noite, nossa aventura tinha prazo, prazo para que as carruagens se transformassem em abóboras, e os cavalos vigorosos que puxavam-na, em ratos.

 E assim, com grande emoção, vos conflitei com o pedido de fuga. Venha comigo, disse eu, para o interior do país, para as colônias. Lá poderemos casar, tornar as promessas e desejos de ambos reais. E foi assim que vi em ti a dúvida. Um coração dividido, como disse bem Horácio, não ama totalmente. E assim estavas; e assim quisestes permanecer, até que tivestes que decidir qual perfume não poderia ficar no frasco delicado que é teu peito. Não fui eu a triunfar.

Lembro das noites após aquela entrevista. Uma grande agonia, para mim e para ti; um tormento sem fim; horas que martelavam a dor da tua perda, bem fundo no meu coração espatifado; dias cinzentos e frios, sem vida ou esperança. Quantas lágrimas não derramei? Ainda hoje, nas noites de dor, me pergunto o porquê de tua decisão, ou da aparente irracionalidade de Deus em nos permitir construir algo tão belo para logo depois por em ruína. Como resposta, ouço o sussurro do vento, a bater nas paredes de minha casa, como que a me acusar de muito ter amado.

E, não obstante tudo isso, continuo a vos amar. Deus muito foi adulado com pedidos desesperados, para que Ele, com sua Divina Misericórdia, retirasse, como cirurgião retira uma bala do coração do doente, este amor de mim. Mas, aparentemente, Ele ouve uma coisa, e faz outra; por que só o que consigo é amar-vos mais e mais. Que faço? Que faço, por todos os santos do céu?

Tua imagem não cessa de me surgir; tua voz não consigo parar de ouvir, no vento, no resfolegar das flores, no ruído da chuva beijando a terra, como convosco fiz outrora. Meus pensamentos giram em torno de vós, como os planetas ao redor de um sol, e muito rezo a Deus por um milagre. Que me faça príncipe, para que possa vos tomar pela força da tradição; que me faça herói de guerra, para que possa vos tomar pela força da reputação; que me faça regente da República, para que vos possa tomar pela força da unção popular. Sinto, pois, que nada disso bastaria. Ah, que enorme tristeza!

E tu, o que pensastes, no que pensas? Terás esquecido tudo o que apenas Deus e nós sabemos?

Hoje vi teu retrato, com vosso esposo real, no Jornal do Governo. Parecias feliz, e a legenda abaixo do noticiário proclamava a beleza do amor do mais novo casal real a trocar alianças em Marselha. Poucas vezes tanto quis desaparecer, como quando vi aquela imagem; que o chão se abrisse, e me engolisse para seu seio, e me destrinchasse em mil pedaços. Pois assim ficou meu coração, ao ver-vos longe de mim. Uma mão de ferro fechou-se sobre meu pescoço; meus pés perderam o vigor; minha cabeça esvaziou-se de tudo; meus olhos arderam, e lágrimas me banharam a face vezes seguidas. Toda a frustração, mágoa e decepção que os derrotados sentem na guerra perdida tomaram conta de mim. Nem quando, como Tenente de cavalaria, vi a derrota em Sedan, senti-me tão igual aos cães que fuçam nas lixeiras da muralha de Paris.

Toda a dor dissipou-se quando soube de tua chegada e, ainda mais, quando de ti recebo um bilhete acalentador. Agora, apresso os cavalos para ver-vos. Misterioso é o amor, que tanto nos inflige a dor, para, no instante em seguinte, nos preencher de felicidade. O que faço em diante ou não, não tenho ideia. Meu único desejo é, uma vez mais, ver estes olhos que tanto me paralisam...

Saibas tu que meu amor por ti é tão perene quanto uma estrela a brilhar nos céus. Saibas que, apesar de tudo, meu coração vive, mais forte do que nunca, a bater por vós; saibas que tal sentimento toma conta de mim como que uma força estranha que me faz flutuar, delirar, dançar nas nuvens do paraíso com os anjos do amor. Para ti retorno, nem que seja para ver-vos de longe... pois vou de encontro ao meu destino.

Espera-me, pois, como vos disse tanto, volto para te buscar...


Meu coração é sempre teu,

Minha fé é sempre em ti,

Nosso amor é para sempre eterno,


Jean Marie de Fouquet''

domingo, 13 de outubro de 2013

Do amor, do vento e das palavras



"Recordo-me que um certo filósofo falava no poder quase que cabalístico das palavras; o velho Heráclito. Palavras podem conduzir as consciências dos leitores rumo à viagens incríveis, reflexões inesquecíveis, sensações poderosas, situações irrepetíveis. Contudo, há pelo menos um elemento, um sentimento, uma força cuja mágica das palavras pouco pode alcançar: seria como descrever o que é o vento e como sabemos que, apesar de não o vermos, ele existe e tem tanto o potencial de nos refrescar numa tarde quente quanto de arrasar cidades inteiras. 

Pois nada melhor que o vento para descrever o amor, seja o que se entender por essa velha palavra latina, amore. O vento é uma força da natureza que que a tudo pode envolver, que está aqui e ali, geralmente suave e acalentador, mas por vezes forte e destrutivo. E, como toda força, tem uma direção definida, e atravessa tudo no caminho, de maneira lenta ou arrebatadora, para chegar a esse destino. Assim é o afetado pelo milenar mal do amor.

No fundo, talvez exista algo mais em comum entre o vento e amor. O fato de que ambos só podem ser considerados existentes quando uma vez sentidos à flor da pele; para saber-se o que é, só sentindo. Isso significa que o amor será somente uma fábula infantil para aquele que nunca sentiu-o percorrer todos os rincões de seu corpo, amolecer suas pernas, revirar seu intestino, fazer ribombar seu peito, arder seus olhos e levá-los às lágrimas... e, ainda como o vento, o amor age esculpindo na pessoa que toma um novo ser. Um novo ser, que sentirá algo novo.

Outro filósofo, Nietzsche, dizia que o sentimento, a paixão, a vontade, é aquilo que mais se aproxima de uma "essência'' humana. Um sentimento, dizia, voltado para a construção e destruição de padrões morais, políticos e culturais; com o amor, o eterno retorno ao nada, com a sempre triunfal ascensão da destruição criativa sobre tudo, sofre uma parada brusca. O amor apenas destrói o que havia antes e edifica, em seu lugar, algo que comunga da perenidade dos sentimentos e crenças sempre presentes em quaisquer sociedades humanas. O que se destrói é uma velha pessoa para que uma nova tome lugar no trono dos imortais, posto na assembleia daqueles que, um dia, amaram com todo seu ser a um semelhante. O caminho da imortalidade da alma é a comunhão com princípios e valores elevados, e no topo da hierarquia dos valores, está o amor. Ele é o fim da existência do homem e, por que não dizer, a porta estreita que, tal como um anel, conduz o ser amante à própria fonte do amor: Deus.

Resolvidos os problemas das essências, como e onde acontece o amor é um dos maiores mistérios da humanidade. Dizem alguns que, tal como uma doença endêmica, ocorre seguramente mais entre seres opostos que os iguais. Na verdade, tal ideia segue a tendência, sempre presente no senso-comum, de que o amor é algo radical: ou iguais, ou opostos. A verdade é que os opostos se separam quando a carga que os une termina (a curiosidade, o desafio, a atração pelo diferente...) e os iguais mergulham numa morbidez tão grande que, ao invés de se unirem e se confundirem em um só, tendem a desenvolver diferenças que não tinham antes, para se diferenciar um do outro, e terminam por se tornarem opostos. Essa racionalidade radical não corresponde à "fórmula do amor''. Na verdade, os amores reais, aqueles que encantam gerações em todos os séculos, se dão entre duas almas que encontraram tamanho complemento um no outro que, cada vez mais, ao invés de se diferenciarem, se unem em um laço de dependência sentimental arrebatador, que, tal como furacão, pode destruir tudo que as impede de juntarem-se numa unidade indestrutível. Se tornam, em pouco tempo, como que um só, comungando pensamentos, ideias, vontades, choros e alegrias, e a mulher se torna uma costela, de costel-cordis (coração, em latim), para o homem. O complemento perfeito pode ser aferido pelo simples pensamento de que a perda ocasional da pessoa amada destruiria de tal forma aquela que restou que nada mais vale a pena ser vivido.

E as palavras... para os apaixonados, são cabalísticas. Entretanto, muito cuidado com as palavras: a paixão não descreve o amor. Não há sinômia necessária entre um e outro. A paixão é uma emoção longa e continuada, quase uma obsessão de cunho quase sempre erótico que, como uma chama de fogueira, tende a se extinguir quando cessa o desejo. O amor, por sua vez, não cessa nem com a morte ou a velhice. Voltando-se ao ponto de partida: as palavras apaixonadas estão dentre aqueles que possuem maior potencial cabalístico. A magia de se ouvir um "eu te amo'' sincero pode mover montanhas mais facilmente que o "fogo!'' proferido por um general que ordena um bombardeio sobre uma cadeira de montanhas. A magia que existe nas palavras de amor são como que a própria extensão da alma apaixonada que busca adentrar à alma amada através de seus ouvidos...

Por fim, mágica maior não pode existir no amor que não sua unidade. E uma unidade, contudo, que tal como o branco é a mistura de todas as cores do arco-íris, pressupõe uma reunião entre várias dimensões do amor. Lewis, famoso escritor, elencou quatro tipos de amores, que, como degraus de uma escada, vão dos mais comuns e menos puros aos mais elevados: dizia ele que a afeição (familiar), a amizade, o Eros (amor de cunho sexual/marital) e a caridade (amor divino e incondicional) são várias dimensões de um mesmo sentimento que tem como fonte e finalidade Deus. Se o amor conduz à caridade, ao espelhamento do amor divino, é um amor real que opera mudanças positivas naquele que ama; quando se distorce em egoísmo, endeusando-se, torna-se a negação do amor, como comumente ocorre com Eros. Arrisco-me a dizer que, em relação ao último, só há chance de ter-se amor real se o Eros for a união entre todos os outros amores. Só assim se tornará independente da reciprocidade, pois a amizade traz o companheirismo, a afeição a profunda ligação dos parentes e a caridade a incondicionalidade elevada própria do amor divino.

E se há uma última palavra que pode ser dita pelo amor é que, como o vento, devemos senti-lo mais que tentar descrevê-lo. Só assim, ao invés de se entender como a árvore imortal do amor cresce, possamos encher nossos olhos quando, nas primaveras eternas nas quais os amantes se unem, os frutos penderem belos e viçosos de seus galhos e alimentarem seus dois jardineiros. Por que a eternidade é o prêmio daqueles que consomem suas almas em prol uma da outra, misturando suas cinzas em uma só, da qual renascerá um único ser, vivente para sempre. ''

José Luís Barreto

sábado, 12 de outubro de 2013

Análise de perfil - Eduardo Campos


Praticamente desconhecido das massas, embora seu nome esteja na boca e na mente de todos os políticos e jornalistas do país nos últimos dias, o homem mais poderoso de Pernambuco é uma personalidade enigmática, fascinante e, por isso mesmo, perturbadora. Embora alguns, ainda apegados aos velhos esquemas metodológicos do objetivismo materialista, digam que é empobrecedor, para uma análise política, o exame de elementos psicológicos e subjetivos das grandes personalidades da política, aqui consideramos que o próprio mundo é uma colcha de retalhos formado por extensões e assimilações de consciências individuais e coletivas. O "Eu'' de Eduardo Campos constrói parte da realidade regional e nacional, e, mais que isso, as impressões que essa subjetividade tão complexa deixam nas mentes das pessoas são uma peça fundamental na compreensão do novo fenômeno político do século XXI no Brasil: a ascensão do pragmatismo maquiavelista.

Para a análise do homem político, moral e psíquico por trás de seus olhos de bichano, farei uso de sua última entrevista, concedida à Revista Época.


"ÉPOCA – O professor ganha mal no Brasil?Campos – Ganha mal. Acumulou-se a gestão malfeita no passado, e muitos lugares ficaram condenados a remunerar mal. Se houver diálogo com os professores, e se houver disposição, construiremos uma travessia de resgate de autoestima, fundamental para o resultado no aprendizado. Se o professorado ficar deprimido, não haverá resultado.'' 

Diante de muitos trechos importantes, este em especial me chamou atenção pela superficialidade extrema. De primeiro, a pergunta tinha uma resposta óbvia e tão pronta em si mesma que Campos sequer forçou muito a mente para mudar o raciocínio já presente no questionário: "ganha mal...'' revela a pouca capacidade do governador em ir além do que lhe foi dado e construir respostas e raciocínios mais inovadores. Isso casa perfeitamente com a ideia que me salta à cabeça quando ouço Eduardo falar em público, onde o homem aparentemente decorou um discurso e se esforça, visivelmente, para não ir muito além dele. Esse não é um problema só de Eduardo, mas de muitas pessoas, que tiveram uma educação baseada no velho método jesuíta-positivista de "decorar'' verdades essencialistas presentes nos livros do saber, o que muitas vezes macula e atrofia a capacidade crítica e discursiva; o problema dos pragmáticos é que eles são pouco críticos, pois a cegueira em seguir metas e preservar alianças mata qualquer questionamento que possam ter. Outra característica negativa, presente dessa vez em 99% dos gestores públicos do país, é jogar a culpa dos problemas do presente nos administradores do passado (no caso, o "administrador passado'', Jarbas, é um aliado de Campos hoje...): quando perguntando do problema, Eduardo sabe que, em seu Estado, os professores ainda ganham o pior salário do país. 

A saída é a mais óbvia para um político, ou seja, por a culpa em outro político. Lavando as mãos, diz que a "herança maldita'' impede os aumentos salariais dos educadores... depois, fala em diálogo, algo que pouco cumpriu em sua gestão. Não realizou concursos estaduais para educadores e pouco mais fez que adotar um sistema de bonificação para "premiar'' o mérito dos educadores mais competentes, e tem o sangue-frio o bastante para dizer que a solução para a educação passa por algo que não fez quando teve a chance. E, claro, um grand finale emotivo, tal como o cordialismo brasileiro exige: a crônica do "professor deprimido'', que deve ter sua auto-estima recuperada. Para o eleitor miúdo, uma declaração assim desce bem, mas os mais instruídos torcem o nariz para emotivismos. Como elevar a estima dos educadores? Salários mais altos? Equipamentos? Salas menores? Eduardo a isso ignora e, contrariando seu característico pragmatismo, deixa de apresentar metas claras para a Educação. E não apresenta por que não tem, e quem não tem projeto a apresentar em determinada área apela para a emoção, com o fim de disfarçar o próprio despreparo ou indiferença para com a área omitida...

Enfim, pouco crítico, utilizando-se de artifícios emotivistas para disfarçar sua indiferença quanto à educação, relativamente "preso'' a um discurso pronto e "dado''. Um homem que quer cumprir metas, mas não se questiona ou tem capacidade pra raciocinar além do que foi "dado'' pelo senso-comum pouco pode fazer para transformar um país.



"ÉPOCA – O senhor usa o sistema de saúde pública?
Campos – Já tive experiência de ser atendido em emergência. Já como governador, tive um processo alérgico, estava próximo de um hospital público, e fui lá. Mas tenho seguro-saúde, o mesmo há 20 anos.''


A pergunta foi um ataque frontal do entrevistador, que deve ter dados sobre o caos da saúde pública em Pernambuco. Eduardo mais uma vez foi astuto: como obviamente tem dinheiro suficiente para ter um ótimo plano de saúde (por que só um excelente plano de saúde dura 20 anos no Brasil, sem ser fechado por ordem judicial ou cair em descrédito), optou por dizer como que "olha, eu tenho um Plano de saúde f$#%&@$o, mas o sistema público funciona bem o suficiente pra atender até pessoas como eu, que não precisam, quando necessário. Eu fui e estou vivo; quanto mais quem precisa!''. O argumento reverso foi relativamente bem posto, mas traz suas incoerências. Ora, sabemos que as emergências de hospitais públicos são super-lotadas. Imagine agora que, em meio a centenas de pessoas que chegaram há horas, o governador é trazido em uma maca, em processo alérgico. O que você acha que aconteceu? Que ele esperou, como qualquer cidadão, ou foi prontamente atendido, para indignação dos pobres que ali esperavam horas, em lenta agonia? Isso só denuncia, ainda mais, a imensa desigualdade social que separa Eduardo, milionário, do povo que ele diz representar, miserável.





"ÉPOCA – Qual sua opinião sobre as privatizações, no governo FHC e no governo Dilma? Como trataria a questão?
Campos – Não tenho preconceito com iniciativa privada, nem com Parcerias Público-Privadas, concessões. Não temos no orçamento fiscal brasileiro a capacidade de alavancar os investimentos, como a realidade exige. Temos de chamar a parceria da iniciativa privada. E ela não fará por filantropia uma rodovia, um porto, um aeroporto, uma linha de metrô. Fará para ganhar dinheiro. Precisamos garantir um ambiente que passe confiança e nos ajude a ter investimentos em áreas que melhorem a qualidade de vida e a produtividade da economia.''


Campos aqui se anima mais um pouco. Aqui, critica seus adversários petistas, ao afirmar que "não tem preconceito'' com o empresariado. A verdade é que político algum tem; afinal, alguém tende financiar as campanhas, não é?  Pelo menos, dá a entender, Campos não tem medo de dizer que quer proporcionar doces lucros aos empresários, e, de quebra, resolver os problemas de investimento do país, que estão alarmantes (o governo investe 7% do que arrecada... convenhamos, o PT atualmente é o maior "aliado'' de Campos!). Se apresenta o neto de Arraes aqui como o fiador de um novo pacto entre a poderosa e assustada iniciativa privada e o Estado brasileiro, resolvendo os problemas de hostilidade mútua e, por sua vez, toda solução se baseia na "confiança''. Mais emotivismo? Não exatamente. Um empresário não "confia'' no governo por este ser de direita (FHC adorava praticar calotagens até com seus queridos bancos...), mas por este estar disposto a tudo para honrar os pactos celebrados. Em suma, ele confia no governo se este lhe proporcionar grandes e continuados lucros, de maneira estável. E é isso que Eduardo oferece, ainda mais com um plus para os empresários: "vamos chamar vocês a investirem, mas vamos arcar com boa parte, para vocês terem estradas, portos e aeroportos pra diminuir seus custos, e abrir duas torneiras de dinheiro ao mesmo tempo''. Eduardo é o homem de confiança dos empresários, apesar de ser nominalmente socialista. Sem preconceitos, que se dane as ideologias e a coerência, vamos lucrar!



"ÉPOCA – O Brasil sofre com a armadilha de crescimento baixo. Da nossa riqueza, 40% vão para a máquina estatal. O que fazer?
Campos – O fundamental é desenhar o caminho estratégico. Teremos uma caminhada de uma década. Nessa caminhada, ajustaremos distorções que existem e compatibilizaremos as políticas fiscais e econômicas, num caminho em que passaremos confiança aos agentes econômicos. Há no Brasil mais uma crise de confiança do que uma crise econômica. Os fundamentos econômicos poderiam estar melhores? Sim, mas já estiveram piores. O importante é passar para a sociedade com clareza que há um projeto discutido, de longo prazo, que juntará boas ideias e boas pessoas. Isso conquista a primeira batalha: a batalha da confiança.''


Veja que Eduardo não fala exatamente em como resolverá o problema dos "voos da galinha'' do rendimento do PIB brasileiro. Estratégia, planejamento, longo prazo, fundamentos: tudo isso fortalece a palavra-chave do discurso eduardista. "Confiança''. Todavia, não se trata de confiança dos agentes econômicos no desempenho do PIB brasileiro, mas de confiança no próprio Eduardo. Sabemos muito bem que os 20 mil rentistas que vivem dos R$ 650 bilhões anuais que o governo paga religiosamente para "rolar a dívida pública'' confiam demais no Tesouro e que as empreiteiras e super-empresas sabem que podem obter empréstimos do BNDES na hora que quiserem. Esses confiam muito na economia e sabem que o governo atual fará o que for necessário para manter a os preços estabilizados. O que Campos quer dizer é que ele também é capaz disso, e capaz de propiciar estabilidade regada a aumento do PIB - e, consequentemente, mais lucros. Eduardo não apresenta um projeto, o que seria essencial pra "iniciar a discussão'', mas apenas aponta para a necessidade de debate. Um debate, ressalte-se, restrito a ele e os agentes econômicos, os que devem apresentar suas demandas para "sentir confiança'' na economia. Compatibilizar a política fiscal e econômica é algo tão vazio quanto querer compatibilizar farofa com porco assado, ou queijo com goiabada, por que uma coisa combina sempre com a outra. A política fiscal tem reflexos na econômica, invariavelmente. A batalha da confiança é arrebanhar os empresários que apoiam o atual governo para as hostes eduardistas.



 "ÉPOCA – Aborto?
Campos – A legislação que está aí é a que o Brasil pode ter neste momento.''


Nesse ponto, Eduardo foi curto e grosso. Mas, como toda lâmina de dois gumes, corta dos dois lados. Agrada aos conservadores, demonstrando que as disposições do Código Penal de hoje bastam (aborto como exceção, nos casos previstos em lei, e como crime, em regra), e dá esperança aos feministas, pois se "a lei atual é a que o país pode ter'', no futuro "pode ter outra''. A resposta em apenas uma frase denuncia o desprezo que Campos sente da temática, já que é um homem interessado em apresentar-se como um gestor responsável e confiável, um homem dos empresários e para eles, características aos quais o fato de ser abortista ou não simplesmente é irrelevante. Na verdade, quanto aos direitos das ditas minorias, Eduardo adota o discurso conservador, mas eficientista: "não tenho tempo pra discutir essas questões; tenho de gerir negócios vultosos, orçamentos trilionários, gerar lucros e riqueza. Deixa esse negócio de aborto como está.''



"ÉPOCA – Descriminalização das drogas leves, como a maconha?
Campos – Não é o caso ainda no Brasil, neste momento.''


É impressionante como o discurso de Eduardo é palatável e espelhante ao homem-médio.O brasileiro tende a ser moderado em política: nem radical de um lado, nem do outro, mas se alguém ofertar uma mistura de tudo é mais fácil se identificar. Contudo, na maior parte dos assuntos, o brasileiro é conservador. Tem medo - ou preguiça- de pensar em outras alternativas, e termina "empurrando com a barriga'', e deixa tudo exatamente como está, por pior que esteja. Por mais que existam 6 milhões de dependentes de drogas no país, que alimentam vários impérios do narcotráfico, o melhor a fazer é deixar que a doença continue a se desenvolver. Eduardo quer se aproximar do homem-comum que, ao ler sua declaração, se identificaria de pronto, e encerrar de vez o assunto, com vistas a ir para "questões mais pragmáticas''. Trata-se de um discurso que aparenta desprezar ideologias, quando na realidade reafirma uma delas: a conservadora, moralmente falando. Contudo, com mostras de "seu pensamento de longo prazo'', Campos fala em "neste momento'', indicando que em outro momento pode ser necessário liberar drogas leves. Necessário como? E para que? Para os planos eleitorais de Campos, é claro...



"ÉPOCA – Por quê?
Campos – Porque vivemos uma epidemia do crack. Precisamos romper essa epidemia com outros mecanismos para abrir um debate dessa natureza.''



Confesso que, à uma rápida leitura, é fácil aceitar o que Eduardo diz. Afinal, é tudo droga, não é? E a maconha é a porta do crack. Não temos dados suficientes para concluir tal ideia - embora seja a que eu especialmente me inclino-, de forma que optar por ela é uma questão mais ideológica que científica, mas é o que Campos quer dizer. A epidemia do crack é real, embora seus motivos sejam desconhecidos totalmente: há um sem-número de fatores envolvidos. O pior de tudo é falar em "outros mecanismos''. Mais vagueza é impossível: o cidadão comum, já concordando automaticamente com Eduardo, imagina o que quiser em "outros mecanismos''. Uns pensam em internação compulsória, mais combate ao tráfico, campanhas nas escolas, tudo. Ou seja, é uma casca vazia onde se pode por qualquer conteúdo. E como o cidadão já concorda com Campos, pensa que o "seu'' mecanismo de contenção das drogas está automaticamente sendo considerado pelo governador em sua expressão "outros mecanismos''. Brincar com as palavras e fazer adeptos acriticamente, eis duas coisas nas quais Campos é mestre. E ainda se fala em debate, como se fosse necessário diante da opinião já vencedora de Campos!


"ÉPOCA – Neste ano o povo brasileiro foi às ruas por não se sentir representado pelos políticos. Qual sua resposta a esse cidadão?
Campos – Foram para a rua para melhorar o Brasil. Ninguém sai à rua para piorar. A primeira das mudanças precisa ser na política. Se não mudar a política, não mudará o Brasil. A primeira resposta concreta é dada desde sábado. A gente oferece um caminho diferente, fora dos arranjos tradicionais, para colocar em debate. Isso animará enormemente a juventude, os militantes sociais, os que se preocupam com o futuro do Brasil, os que querem justiça social. Isso animará quem estava desanimado com a política. Qual o resultado? Teremos de esperar 2014 para ver o resultado.''


Essa foi especial. Eduardo não sofreu, em termos de popularidade, com as jornadas de protesto de junho último, apesar de 100 mil pessoas forem às ruas contra "tudo que está aí'', e em vários protestos seguidos a Polícia Militar de Pernambuco ter massacrado os manifestantes (em três das vezes, estive presente e pude conferir a barbárie com a qual os nobres policiais trataram estudantes desarmados, em cenas que pareciam vir do sombrio túnel do tempo de 1968...). O que é curioso é associar a construção de uma aliança eminentemente politiqueira aos movimentos de protesto de massa, como se fossem frutos destes, "uma resposta'' aos anseios populares para "melhorar o Brasil e sua política''. Faz parte da estratégia para captar os votos de Marina, muito popular entre os 5 milhões que marcharam pelas ruas do país nos protestos de junho, e uma manobra, que se reconheça, brilhante e ao mesmo tempo problemática de Campos. Brilhante, por que os desinformados podem crer na aliança Rede-PSB como uma reforma da política dentro da política; problemática, por que a incoerência de se casar o pragmatismo político com o movimento mudancista popular pode resultar em um divórcio pré-gerado, ou automático. Eduardo costuma fazer pactos políticos independentemente de qualquer orientação ideológica, tal como demonstrou ao coligar o PSB, em alguns Estados e Municípios, até mesmo com o DEM. Como este homem pode representar a "renovação'' da política? 

Eduardo não é uma renovação. É uma rearranjo, uma mistura entre todos os "políticos'' que governaram o país desde o século XIX: um bacharel (formado em economia pela UFPE); de família de políticos- uma oligarquia "de esquerda''- ou seja, um oligarca; tecnocrata (seus gabinetes de governo e equipe são de técnicos especializados, que cumprem metas); populista (acostumado a "dourar a pílula'', apresentando-se como grande gestor próximo do povo); demagogo e, essencialmente, um perfeito seguidor da Realpolitik. Ele pouco se lixa para as velhas ideologias. Quer gerar lucros para garantir o apoio dos empresários e pouco importa no que acredita. Ele quer, contudo, se apresentar como o meio-termo, a terceira via, entre o petismo e o tucanato, e até mesmo a síntese entre ambos, mantendo o assistencialismo e a mão-forte do petismo, mas com pitadas de neoliberalismo gerencialista. Uma combinação nunca antes testada nacionalmente e que ressuscita os postulados de Gibbens.

Se dará certo ou não, que se responda com as palavras do analisado desta postagem: "temos de esperar 2014 para ver o resultado''.

A volta dos que não foram


Caros leitores,

Peço que me perdoem a longa ausência, mas há três meses venho tendo um período estafante na Faculdade (do qual ainda não me recuperei mentalmente...). Contudo, o banho de leis, códigos e procedimentos inúteis, que tive de decorar pra passar nas provas, como é exigido de um bom aluno, emperraram-me o cérebro e só o que consigo pensar para destravá-lo é pô-lo em atividade. Cogito, ergo sum.

É assim que dou início à uma nova fase do Blog. Textos mais enxutos e reflexões mais sentimentais serão as principais novidades, embora sempre tenhamos um drink de filosofia e, claro, ofereceremos os característicos canapés da política e da história. Sintam-se convidados a este coquetel, cujo único fim é gerar discussões e, consequentemente, baderneiros, arruaceiros e desordeiros, para que se atirem pedras nas vidraças frágeis e opacas do senso-comum, pichem-se as caricaturas e mentiras com as quais os poderosos justificam seu império de morte e ponham-se abaixo os muros das prisões filosóficas e políticas que mantêm as massas acorrentadas à uma vida consumista sem sentido e suicida, para si e para o planeta.

Indignai-vos,

e... fogo!

JG